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Ele, de novo Ufa! Finalmente. Lar, doce lar. Giro a chave, afasto a porta, largo a bolsa no sofá. Atrás de mim, a porta escancarada deixa entrar alguma luz lá de fora. Quando a cerro, penso ver uma silhueta na penumbra, sentada ao sofá. Pisco os olhos, mas antes de alcançar o interruptor já tenho a desagradável certeza. Essa não, o rato voltou! E dessa vez, como eu previa, está com o controle remoto. Filho da mãe! Ele liga a tv. Sento-me ao lado, no cantinho. Fico riscando o tapete com a ponta do sapato até criar coragem. “Certo. O que você quer de mim? É comida? Leva. Leva tudo, mas sai daqui!” Ele continua mudo, trocando os canais. Até parar em “Charmed”. Impassível, fica assistindo àquela porcaria por uns cinco minutos. Até que não agüento mais e resolvo explodir. “Ah, ‘Charmed’ não! Pelo menos bota num programa decente!”. Ele olha para mim espantado. Acho que fui ríspida demais, devo tê-lo assustado. Não devia ter falado assim, ele pode se enfezar. Ainda me olha, atônito. Abre a boquinha. Ai, meu Deus. Ele vai falar. “Não sabia que você não gostava de ‘Charmed’, ué. Desculpe”. Nisso, ele troca de canal. Pronto. Era só o que me faltava. O rato quer ser meu amigo. Bem, como diz o ditado, when in Rome... Perguntei: “Quer uns salgadinhos? Algo para beber? Vai começar ‘Os Simpsons’ na Fox, bota lá”. Ele, mui solicitamente, perguntou: “Qual é o canal? É que eu tenho Sky...”. Me ambientei: “Ah, sim, é diferente, né? Aqui na Vivax é o 48”. “Ok”, fez ele, e pressionou os botões com as patinhas. “Aceito cerveja de trigo, você tem?”, completou. Abro a geladeira. “Hmmm, só tem Tubaína. O Douglas bebeu toda a cerveja... Ah, tem groselha também. Aceita?” Resignado, ele fez que sim com a cabeça. Aquele olho vermelho ainda me dava aflição. Será que o meu amigo rato se ofenderia se eu pedisse para ele botar um par de óculos escuros? Servi a groselha e levei na bandeja. O roedor tá ficando meu amigo, mas ainda são necessárias certas cerimônias. “Ah, ah, ah. Eu adoro essa abertura. O tema do Danny Elfman é perfeito, não? Sou fã dele”, me confidenciou o rato. “Olha lá, olha lá! Agora o Bart vai aparecer escrevendo na lousa. Já reparou que a frase sempre muda? Conseguiu ler a de hoje? Foi ‘Eu não vi Elvis’. Ah, ah, ah. Bom, mas eu vi!”, e piscou. Pronto. Era só o que me faltava. O rato viu o Elvis. Olhei para o rato espantada. Ele notou e fitou-me de volta com aqueles olhinhos vermelhos (argh, de novo, que aflição!). Fez uma cara de entendido, esboçou um meio sorriso e segredou-me, como quem sabe das coisas: “Vai dizer que você acha mesmo que ele morreu em 77?”. Estava começando a gostar do rato. Retruquei: “e você acha que o Paul é mesmo o Paul?”, animada. Ele fez cara de blasé e disse: “Não sou muito chegado aos Beatles, não... Sou mais uma Elvis person. Ou melhor, mouse. Sacou? Sacou? Ah, ah, ah”. Ah, seu rato! Tudo bem invadir minha casa, tomar conta do sofá e dominar o controle remoto. Tudo bem ficar explicando as piadas. Mas achar que o Paul está vivo, aí não! Engatamos uma pequena discussão, mas ele era muito cordial para insistir na peleja. Pronto. Era só o que me faltava. O rato é bonzinho. Acabamos entabulando um longo papo sobre lendas urbanas. O rato também morria de medo do Reverendo Moon e parou de comer balinhas Van Melle depois do boato da cocaína. De alguma maneira, o assunto voltou para música (acho que depois das histórias sobre o boneco do Fofão. Ele também tinha o disquinho do caldo Knorr) e passamos a trocar figurinhas sobre as nossas listas de cinco melhores canções – eu dos Beatles, ele do Elvis. “Tudo bem, Something é mesmo uma música do caralho”, cedeu. Quando dei por mim, eram umas onze e tralalá. Bocejei alto uma vez. Ele, com a atenção voltada a outro episódio, quieto. Bocejei de novo. Ele, “eu amo o Gengivas Sangrentas. Acho um personagem subestimado, não?”. Bocejei três quando entrou o intervalo. “Olha, não me leva a mal, mas tá meio tarde, né? Amanhã eu acordo cedo. E meu marido deve chegar da sinuca logo mais. Vai ser difícil para ele me pegar com um rato no sofá, assistindo “Os Simpsons” e tomando groselha”, expliquei cheia de dedos. Ele hesitou por um momento. Disfarçou o desapontamento, mas rapidamente emendou: “Tudo bem, se eu correr pego a segunda parte do episódio em casa”. “Então tá. Tchau”. “Tchau”. Pronto. Era só o que me faltava. Fiquei amiga do rato. Clara McFly às 04:42 PM |
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