quarta-feira, 30 de março de 2005

Manual da fauna discente

Pode ser particular ou pública. Pode ter nome de gente famosa ou ser conhecida por uma sigla estranha. Pode ser no bairro chique ou na periferia. Pode ser grande, com laboratórios e bibliotecas, ou pequena, com apenas uma quadra descoberta. Pode obrigar a cantar o hino ou tocar música pop no intervalo. Pode ter cantina ou sistema de merenda. Pode ser a sua escola, ou também pode ser a minha.

O fato é que não importa qual a espécie de instituição de ensino: invariavelmente, o local será freqüentado pelos mesmos alunos. É como se alguém tivesse escolhido tipinhos básicos para ver como eles interagem entre si dentro de um mesmo ambiente. Parece um reality-show, onde o prêmio máximo é passar de ano e o paredão é a prova bimestral.

Quer ver como você reconhecerá algumas dessas figuras?

O Pivete
Ele é o aluninho mais novo constantemente importunado pelos maiores durante o intervalo. Provavelmente, o pequeno será a cara do menino da revista “Mad”: cabeçudo, sardento, banguela. O alvo é fácil pois o pivete sempre possui lanches deliciosos em suas mãos, feitos com carinho por sua genitora (ou então comprado na cantina por sua mesada). De tão inocente, ele acaba até gerando um certo carinho em seus algozes. Depois de zoarem o moleque até não poder mais, chegam para o amiguinho dele e dizem “Esse aqui é nosso chapa. Se você bater nele, vai se ver com a gente, hein?”. O pivete até ensaia um sorrisinho.

O Repetente
Ele é o cara mais velho da classe. Senta no fundão, não conversa com ninguém e mantém uma cara de paisagem o tempo todo, já que se acha superior por ser “experiente”. Quando ele fala, todo mundo olha e escuta. Ele adora vestir camisa xadrez de flanela, mesmo que o uniforme escolar não permita outras vestimentas – afinal, quebrar regras faz parte do folclore do personagem. Normalmente, ele se parece com o Chaca de “O Elo Perdido”: é barbudo, cabeludo e não é lá muito chegado em tomar banho. Se recebe uma nota baixa na prova, dá de ombros e faz cara de quem sabe que um dia ele será alguém na vida.

O Galã
Ele é o bonitinho, típico baby-face com o qual toda menininha sonha quando é adolescente. Elas suspiram quando ele passa, achando o rapaz uma mistura de Dado Dolabella com Ricky Martin com uma pitada de Justin Timberlake. Ele bem conhece sua posição, mantendo aquela pose de gostosão por onde quer que passe. Na aula de Educação Física, ele pega a bola de basquete e fica, sozinho, atirando-a à cesta; ou pega a bola de futebol e fica, sozinho, chutando-a ao gol – fazendo de conta que nem é caso pensado para atrair mais ainda os olhares femininos. Ele é do tipo que evitar ter namorada fixa, pois gosta de cultivar a fama.

O Alívio Cômico
Ele usa óculos fundo de garrafa. Ou então, é gago. Ou tem alguma dificuldade de aprendizado. Ou é gordo. Ou é afeminado. Ou, pior, é tudo isso junto. O coitado é constantemente importunado pelos outros companheiros de classe, que tiram sarro de tudo que ele faz ou deixa de fazer. Se conseguir dar a volta por cima, pode virar o centro das atenções e se transformar em um outro tipo, O Comediante – que pode até faturar várias garotinhas exatamente por saber rir de si mesmo. Se ele não suportar o peso, pode acabar como O Atormentado – aquele que acha escola um trauma e vira uma pessoa intratável e instrospectiva.

A Popular
A versão feminina de O Galã. Normalmente, a garota mais bonita da classe é loira, de madeixas longas e corpo bronzeado. Ela usa o uniforme, porém o personaliza de acordo com seu gosto: cola strass no logotipo da escola, corta a camiseta para ficar mais curta, dobra a calça até o tornozelo. É filha de mãe perua que a leva desde pequenina para o salão de beleza. Ela faz luzes quando as outras meninas estão apenas interessadas em brincar de boneca ou jogar bafo. Ela sabe usar (e usa) sombra, rímel e batom quando suas colegas fazem apenas um rabo de cavalo com elástico simples. É aluna mediana, mas craque em voleibol.

O C.D.F.
O tipo, que pode ser feminino ou masculino, convive em harmonia com os demais. Não destrata, mas também se mantém longe de outras espécies da fauna escolar. Sabe que está lá por algum motivo: passar de ano. Para isso, se dedica a estudar, ir bem nas provas, detonar nos trabalhos e humilhar na feira de ciências. Só se sente um estranho no ninho em aulas de esporte. Sempre fica no banco no futebol para meninos ou no voleibol para meninas. Não são as pessoas mais atraentes, mas só porque não ligam para a aparência. No dia da formatura, eles saem do casulo, colocam uma roupa ajeitada e atraem olhares.

Vivi Griswold às 12:03 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold