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A ruiva, o ET e o vídeo que ninguém viu Parte II Foi então que o trio de estudantes universitários notou que o buraco do ET (será que ele possuía um?) era bem mais embaixo. Se a viagem até Varginha tinha como propósito inicial a gravação de um documentário simples mostrando como o jeitinho brasileiro incorpora até casos esquisitos para fazer dinheiro, chamar turistas e aparecer no jornal, agora a visita estava tomando novos rumos. O semblante sério do ufólogo, as explicações ponderadas e didáticas e o distanciamento com a bagunça esotérica nos fez prestar atenção. E engolir seco algumas vezes. We wanted to believe. Ainda mais esta crente em loira do banheiro, brincadeira do copo, conspirações, lendas urbanas e histórias de fantasmas. Até no monstro do Lago Ness eu boto a maior fé. Não tanto pela existência real, mas muito pela importância que os “causos” possuem em nosso cotidiano. Eu não queria viver em um mundo onde tudo tem explicação científica, tudo é preto no branco e dividido em “verdade” e “mentira” como as substâncias em tubos de ensaio nas aulas de Química. Digam o que quiserem, mas eu já estava me simpatizando com o alienígena. Ou melhor, os quatro alienígenas, conforme ditavam as investigações. No começo, a sorte não sorriu para Ubirajara: o ufólogo estava fora de Varginha nos dias em que os fatos estranhos aconteceram. Dá para imaginar? A pessoa espera a vida toda por um caso dessa magnitude e, quando ele finalmente acontece – ainda mais ali, quase em seu próprio quintal –, ela não está presente para testemunhar. Quando o pesquisador retornou, encontrou a cidade em polvorosa com o boato de que três adolescentes haviam visto uma criatura estranha a qual chamaram de “demônio”. Ficamos a par de muitos outros fatores encobertos pela atmosfera de chacota nacional. Por exemplo, a confirmação de que as meninas foram interrogadas diversas vezes em salas separadas e jamais caíram em contradição; que tanto um agricultor humilde quanto um empresário com jatinho haviam relatado as mesmas visões de objetos no céu; que diversos moradores comentaram sobre movimentação militar fora do comum; que um dos soldados supostamente envolvidos no caso faleceu de causa desconhecida; que animais amanheceram mortos no zoológico. E a lista – assim como as pastas na torre de arquivo – continua. No final do encontro com Ubirajara, estávamos com coceira para falar com as garotas. Será que ele não poderia nos dar o contato? “Uma delas trabalha para mim”, respondeu o ufólogo. Liliane ligou no nosso hotel para saber do que se tratava a matéria. Ela não queria se envolver, pois dizia estar cansada de fazer papel de louca na TV. A menina ficou mais calma quando contamos que éramos apenas estudantes, que o documentário não ia para o ar e que a gente queria conversar, e não fazer interrogatórios. Marcamos em uma sala do escritório de advocacia e começamos um papo natural. “Ah, então você trabalha aqui?”, perguntei. “É, o doutor Ubirajara foi o único que quis me dar emprego depois do que aconteceu”. E então começou a detonar um a um os comentários de que elas só queriam aparecer. Se foi esse o caso, o tiro saiu pela culatra. E bastante. Segundo a garota, ela, a irmã e a amiga eram apontadas na rua como mentirosas. Precisaram mudar de escola várias vezes, perderam trabalhos, não podiam ir à igreja. Até o marido de uma das três testemunhas a abandonou. Liliane contava isso com lágrimas nos olhos. Mudamos de assunto e aproveitamos para comentar o programa do Ratinho, que revelara ter finalmente encontrado a chave do enigma de Varginha. A “matéria” mostrava que o ET seria na verdade um rapaz deficiente. “Imagine, ele mora na rua de cima da minha casa, a gente convive diariamente! Não foi isso que eu vi”. Depois de Liliane, conversamos também com a Dona Teresinha, uma senhora de rosto enrugado e esmalte nas unhas. Ao lado de uma parenta (que pediu para acompanhá-la pois a idosa ficava muito agitada quando lembrava dos fatos), ela contou que, durante as comemorações pelo seu aniversário de 67 anos, saiu fumar na varanda do salão de festas, localizado no zoológico. Ali, avistou uma criatura com a mesma descrição. Perguntamos o que ela achava dos comentários da população em geral. Dona Teresinha deu de ombros e disse estar tranqüila e certa do que viu. “Elas (as três meninas) são muito novas para inventar uma história assim, e eu sou muito velha para mentir”. Não podíamos sair de Varginha sem visitar o terreno baldio da Rua Benevenuto Bráz Vieira, ao lado do número 76. Ali ocorreu o avistamento do suposto alienígena mais famoso do país. Chegar até o local foi difícil: por que diabos as ruas da cidade não têm nome? E por que diabos as pessoas dizem “vire à esquerda” e apontam a direita com a mão? Quando finalmente chegamos, vimos um muro alto de arrimo. Droga. Vendo nossa cara de decepção, um tiozinho da oficina vizinha tratou de buscar uma escada (!) para a gente espionar, em troca de uma cerveja. Segundo ele, até alemães já utilizaram a ajuda providencial. Com horas e horas de gravação, voltamos a São Paulo. O professor gostou tanto da première bruta de “Aliens e Pão-de-Queijo” que, além de nos dar nota 10 pelo último semestre, ofereceu a sala de edição digital que mantinha em sua casa para finalizar o documentário de forma mais caprichada. Infelizmente, porém, a data foi sendo adiada, adiada, adiada até que... Saímos da faculdade. Pegamos os canudos, arrumamos empregos e a produção continuou inédita. Tudo o que sobrou de nossa viagem a Varginha foi uma estátua do ET feliz (e você acha que eu não ia comprar um souvenir?) e uma fita beta ainda guardada em algum lugar do laboratório de vídeo da PUC – isso se nenhum Homem de Preto resolveu fazer a faxina por ali. Nota da autora: Os textos não têm intenção de explicar o mistério. Se você ficou com curiosidade em saber o que os ufólogos têm a contar sobre o caso Varginha, clique aqui. Vivi Griswold às 10:14 AM |
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