segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

O homem de muitas faces

Ele não é um galã – e nunca foi. Tampouco está na “flor da idade”, como dizem minhas tias – passou desse botânico período com folga. Ele nem sequer fala com sotaque britânico e, ainda por cima, é republicano convicto. Mas tem algo sobre aqueles olhos e aqueles filmes que me deixam absolutamente encantada por Clint Eastwood.

Riam, riam. Podem rir. Com tanto homem interessante (e abaixo dos 40) sassaricando pelo show biz, por que botar esse tiozinho (ou melhor, avô) entre os rapazes (ou nem tanto) que fazem meu coraçãozinho tolo balançar? Não sei bem.

Eu já desconfiava que nesse mato tinha coelho desde a frase heróica de “Dirty Harry”, quando Clint, no papel-título, confronta um bandido e tem com ele um afiado diálogo a respeito do número de balas restante em seu revólver. Como meu primeiro contato com Eastwood foi através desses filmes, pensei: “ok, o cara só faz aquele tipo ‘tira durão’”. Ledo engano.

Quando “Os Imperdoáveis” e seus quatro Oscar estouraram, conheci a habilidosa faceta de Clint como diretor. Achei a revisita ao gênero que o consagrou láááá nos anos 60 – o western – impecável. De lá para cá, perdi apenas duas de suas nove películas: “Crime Verdadeiro” e “Dívida de Sangue”. Com o restante, me deleitei a cada ida ao cinema ou à locadora.

Chorei que nem criança em “Um Mundo Perfeito”. Prendi a respiração na seqüência inicial de “Poder Absoluto”. Me diverti com “Cowboys do Espaço”. Senti o soco no estômago de “Sobre Meninos e Lobos”. Ontem, no Oscar, torci convictamente por “Menina de Ouro”, embora desenganada – e perdi o bolão feito entre amigos surpresa e feliz.

Mas foi “As Pontes de Madison” que selou minha paixão por esse cara, nascido em São Francisco, na Califórnia, num 31 de maio que já ficou 74 anos para trás. No filme, a vida de uma dona-de-casa muito mais sensível do que parecia é abalada pelo encontro com um fotógrafo de passagem pela cidade, com a missão de registrar as tais pontes do título. Meryl Streep encarna Francesca com perfeição e Clint vive Robert. A cena da banheira é de suspirar bem alto e o final, insuportavelmente lindo.

Desde então sei que Eastwood é bem mais que o tipo tira-durão ou durão-do-velho-oeste. Além de fazer estes papéis muito bem, ele ainda conta histórias – algo que parece estar cada vez menos em alta em Hollywood – com maestria. Como se não bastasse, também tem o talento de conduzir com propriedade argumentos que, nas mãos de outrem, virariam desbragados melodramas ou romances chorosos.

Como acompanhei sua carreira a partir de “Os Imperdoáveis”, me alegra saber que, antes disso, ele já participou de 58 filmes (tenho bastante com o que me ocupar!) e dirigiu 26 (tenho mais ainda). Isso sem contar sua incursão pela política, como prefeito (republicano, há que se dizer) de Carmel. Nada mal para alguém que começou interpretando o “Técnico de Laboratório” em “Revenge of the Creature”, em 1955.

Eu sei que uma garota de 26 anos arrastar as pestanas para um senhor de 74 pode mesmo ser motivo de chacota. Mas eu não ligo. Não enquanto puder assistir aos filmes dirigidos, produzidos e estrelados pelo sempre belo, aos meus olhos, Clint.

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Lindo desde então


Clara McFly às 06:47 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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