sexta-feira, 4 de fevereiro de 2005

O quintal da avó

O quintal da avó era conhecido assim, com o título familiar da dona da casa acompanhando o substantivo usado para designar o grande espaço nos fundos onde tudo era permitido a uma criança, não importando se a peripécia acabaria em riso ou em lágrimas. Por isso, o quintal podia até ser da avó: mas era muito mais... meu.

O quintal da avó tinha aquela cara típica de todos os quintais de todas as avós. Para identificar um espaço como sendo dessa espécie, por exemplo, basta olhar para o piso. Se ele for composto de cacos sortidos e cimentados como em um mosaico maluco – uma coisa assim meio Gaudí – pode apostar suas fichas na certeza de que ali mora uma avó. E, conseqüentemente, um bando de netos travessos.

O quintal da avó contava, claro, com mais pistas. Um anão desbotado testemunhava o movimento com seu olhar imóvel. Eu sempre achei aquele anão muito triste por estar solitário daquele jeito, sem seus outros seis amigos e sem a Branca de Neve. Acho que a verba acabou antes de completar a família. Ou, então, alguém desconfiou que qualquer lasca usada para comprar a coisa já tinha sido prejuízo suficiente.

O quintal da avó era cheio de plantas. Além do grande pátio de cacos de lajota, existiam muretas de cimento queimado que delimitavam os canteiros. Quando Pero Vaz de Caminha disse que nesta terra se plantando tudo dá, ele devia estar pressentindo os quintais das avós que tomariam conta do território. Pois ali dava de um tudo: roseiras, samambaias, hortênsias, jasmins, cravíneas... Vasos se amontoavam na terra mesmo, bem como saquinhos de leite servindo de primeiro lar a pequenas mudas (na época em que embalagem longa-vida não existia).

O quintal da avó também tinha grandes árvores. Uma delas dava flores tão cheirosas e tão bonitas que eu pegava as que caíam no chão para enfeitar o cabelo. Lembro-me também de uma figueira. E de um pé de uvaia. Existe coisa mais avó do que pé de uvaia?

O quintal da avó, em sua imensidão, dava espaço para uma generosa horta, despensa para minhas brincadeiras de casinha. Nunca gostei de fazer comida de mentira. O fogão e as panelas até podiam ser de plástico (e eram), mas os ingredientes eram colhidos ali, na fonte. E em cada festa de Ano Novo, a horta divertia por ser destino certo da rolha que voava quando o avô abria a garrafa de sidra como se fosse piloto de Fórmula 1 campeão.

O quintal da avó era habitado por diversos bichos, residentes ou visitantes. Dos residentes, a cachorra Tati, uma santa vira-lata que me deixava montá-la e apertá-la sem nunca haver me mostrado os dentes. O casal de papagaios, o Lôro e a Mulata. O pássaro negro Puinho que andava em liberdade e não sabia voar. Os jabutis que nunca tiveram nome. Os patos que vieram e ficaram dois dias – um deles se chamava Elvis porque tinha topete. Dos visitantes, os insetos costumeiros: abelhas e marimbondos em busca das flores. Mas recebíamos joaninhas, rolinhas e até vaga-lumes.

O quintal da avó foi palco para as mais audaciosas peripécias. Quando eu e meus primos contrabandeávamos caixas de fósforo da cozinha, era fogueira na certa. Se estivesse chovendo, saíamos no aguaceiro para fazer represas e barragens na correnteza das canaletas. Os corajosos hominhos de Playmobil viajavam em precárias embarcações de papel jornal. E os balanços tiravam nossos pés do chão e nos faziam chegar perto do céu. Ou quase.

O quintal da avó servia de cenário para almoços importantes. Fosse Natal ou fosse aniversário, meu avô sacava da pérola “Vamos comer fora!”, referindo-se mais ao costume de colocar uma mesa ao ar livre do que sair de casa e comer pratos preparados por estranhos. Era nesse momento que entrava a célebre “mesa das crianças”, local onde sempre farei questão de me sentar.

O quintal da avó continua sobrevivendo ao tempo com a exata aparência de sempre. Porém, hoje ele me parece bem menor do que era na minha infância. É que, apesar das mesmas dimensões estarem ali, algo aconteceu. Eu cresci.

quintal.jpg


Vivi Griswold às 11:10 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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