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A metamorfose Primeiro dia Não acredito. Eu me mato limpando cada cantinho desta casa. Até afasto a geladeira e o fogão para varrer, em vez de lançar mão da popular filosofia de limpar por onde passa o gato. E então, na maior das sem-cerimônias, eis que essa cascuda imprestável me aparece na sala. Sob a parca iluminação azulada da tv, pensei a princípio que fosse só uma mancha. Ou uma folha no chão. Mas manchas não se movem. Nem folhas. Não sem vento, nem daquele jeito sorrateiro e corridinho. Ainda bem que ela deu meia-volta e saiu por baixo da porta. Imagina ter de matar o bicho? Credo. Segundo dia Preciso me lembrar de comprar um daqueles rodinhos de porta, que vedam qualquer possibilidade de circulação dos insetos intrometidos. Não estão entre os acessórios de decoração mais elegantes, mas vão me quebrar um galhão. Só não posso passar deles, assumindo o mau-gosto, para o conjunto de elefantinhos de espelho ou para a estrela do mar com termômetro. Claro, o bicho nojento apareceu de novo. Mas saiu assim que dei um pisão perto dele. Por enquanto, o estalo bastou.
Eu devia ter desconfiado que não seriam apenas uma ou duas visitinhas descomprometidas. Esses insetos não têm a menor educação. Mesmo sem ser convidada, a fdp voltou. Dessa vez, resolveu conhecer a cozinha. Foi a maior mão-de-obra espantar aquele inseto nojento sem comprometer o chão. Sim, porque se eu esmagasse a danada, a remoção do cadáver e a limpeza da cena do crime sobrariam tão somente para mim. Além do mais, eu não suportaria o “crec” das casquinhas quebradas sobre o recheio macio. É melhor somar ao rodinho um daqueles inseticidas de lata preta.
Pronto! Agora, de volta do hipermercado, estou munida de um rodinho e de 300 ml do mais puro veneno do milho verde. (Desculpe, é que o carro da pamonha acabou de passar). Como a instalação do incômodo acessório de porta exige o uso de furadeira, só poderei fazê-lo no fim de semana. Mas a lata negra me protege de eventuais invasões.
Não foi uma boa idéia borrifar aquele negócio no ralo do banheiro ontem à noite. Quis ser precavida, olha no que deu. Ao abrir a porta de manhã, havia uma verdadeira fiesta de los muertos no box. Pelo menos estavam mortas. Mas em pencas, com perninhas dobradas e antenas dispersas. Eca. Foi difícil coordenar a pá e a vassoura evitando o contato visual direto com aquele cenário repulsivo. Mas já mostrei quem manda aqui. Sexto dia Elas não se fizeram de rogadas. Alguma sobrevivente deve ter testemunhado o massacre químico do banheiro e espalhou para as outras. Agora, amparadas pelo clima calorento, duas delas vieram conferir a decoração do quarto. Do quarto, meu Deus! Tirei toda a roupa de cama – vai saber por onde elas passaram? Mandei lavar o tapete. Aposto que elas estão apenas fazendo reconhecimento de campo para um ataque mais eficaz. Vou ao hipermercado. Tinha alguma outra coisa interessante lá, mas não me ative ao pacote porque achei que não ia precisar. Humpf.
Arrá! Espalhei iscas de veneno por toda a casa. Cada porta guarda um daqueles disquinhos pretos por detrás. Mais tarde, na penumbra da tv acompanhada do último cigarro do dia, testemunhei uma maldita cruzando a sala em direção à porta da cozinha. Bingo! Ela entrou bem atrás da porta, colada ao batente. Nem me mexi. Apenas gargalhei, regozijando-me ao antever seu sombrio futuro. Segundo o fabricante, os insetos comem a isca e vão morrer nas suas nojentas moradas cloacais. Bom. Também não preciso mais dar um jeito nos cadáveres. Acho que estou livre.
“Quando certa manhã Clara McFly acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseada num inseto monstruoso".
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