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Comida não é pasto... ...porque, se fosse, seria fácil! Comer dá trabalho. E como! – sem trocadilhos. Pare e pense um pouco, se um eventual estômago vazio não estiver atrapalhando (sim, porque pensar de barriga vazia é tecnicamente impossível): de uma lauta refeição num restaurante bacana a uma sopinha feita em casa, houve um longo caminho (e muita labuta) por trás dos pratos. Não adianta argumentar: “ah, mas quando a gente vai jantar fora não é assim”, porque é. Vamos começar com o melhor dos cenários: sair para um restaurante que já conhecemos, e cujos garçons já nos conhecem também. Embora você já saiba o que pedir, vai, é claro, pagar pela refeição. E esse dinheiro custou algum suor, a não ser que você seja o Ricardinho Mansur. E quando vamos a um restaurante pela primeira vez? Dá um trabalho danado ler o cardápio – especialmente aqueles metidos a besta, escritos em francês. Como eu vou saber o que quero comer se mal engato um merci beaucoup? Passado o desafio da leitura, a gente arrisca o pedido. Mas sempre convivemos com a possibilidade do prato escolhido não ir exatamente ao encontro do nosso paladar. E, conseqüentemente, com a possibilidade do suado dinheirinho supracitado ir parar direto na lata do lixo. Mesmo que seja do lixo do restaurante. E cozinhar em casa, então? Vixi. Para o mais trivial dos cardápios, haja mão para picar cebola, lavar as folhas da verdura, temperar o arroz, cortar as fatias de bacon, fritar os filés. Isso sem contar o trabalho já realizado até o pacote de comida que descansa em sua despensa ou geladeira. Tomemos os filés como exemplo. Para mim, toda carne brota naquelas bandejinhas brancas de isopor do Wal-Mart. Procuro manter essa verdade descansando em frágil equilíbrio, sem ficar questionando-a – pois no fundo sei que a história do bife não é bem essa. Teve animaizinhos de olhar terno por trás da bandeja. E pessoas que cuidaram desses bichos, alimentando-os, pastoreando-os, vacinando-os. E teve gente que bolou a idéia da vacina. E gente que a preparou. E outros que a venderam. E alguém que preparou os ingredientes com que a vacina foi, por sua vez, preparada. E por aí vai. Não me espantaria se uma hora a corrente batesse em mim... Não imagino o que uma jornalista poderia ter a ver com a pecuária, mas vai saber? Depois dessa mão-de-obra toda, alguém embalou os pequeninos pedaços de bicho morto nas bandejas sobre as quais pouso os olhos em visita ao supermercado. Eu vou levá-los para casa, desembrulhá-los, temperá-los, fritá-los e fazer um molhinho de acompanhamento, para não ficar muito seco (meu favorito é de cebola e tomate, ou de cebola e shoyu. Aliás, imagina a história do shoyu, da soja até o vidrinho?). Depois de encher a pança, tem o gril para limpar, os pratos e panelas para lavar e o fogão para desengordurar. Cruzes, não acaba nunca! E o que é pior: no dia seguinte, eu vou ficar com fome de novo. Droga. E toca a começar tudo outra vez – dessa vez com carne de frango, que senão enjoa. Acho que isso explica a obsessão humana de facilitar ao máximo o preparo das refeições – ou, ao menos, sua deglutição. O miojo, tadinho, é um fruto dessa incansável perseguição do prato-em-cinco-minutos. Mas, convenhamos, não é lá grandes coisas. Tragá-lo puro é um desafio tão grande quanto deve ter sido inventá-lo – um macarrão quase de papel acompanhado de um pó supostamente sabor carne, galinha caipira, legumes ou feijão. Diametralmente oposto ao miojo, que é fácil de fazer e duro de engolir, está o purê de batatas: trabalhoso para preparar, mas ridiculamente simples de se botar para dentro. Não consigo entender qual é a dessa comida, embora a adore. Acho que os humanos cozinham para facilitar a ingestão da comida, certo? Carne assada ou cozida, por exemplo, é muito mais fácil de engolir do que crua. Mas a batata cozida já não é mole o suficiente? Precisa mesmo esmagá-la e transformá-la numa papinha para desdentados? O purê representa a preguiça absoluta da mordida. Defende a lesera ampla, geral e irrestrita, inclusive para os momentos de alimentação. Simboliza a opção consciente pelo trabalho das mãos em favor da economia dos dentes e, conseqüentemente, das visitas ao dentista. Aí sim! Vai ver é por isso que eu gosto tanto dele.
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