“Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta/ Mas um dia afinal toparei comigo”, escreveu Mário de Andrade em um de seus poemas mais famosos. Eu acho lindos esses versos e cada vez mais concordo com suas palavras. Contudo, tenho uma ressalva a fazer: não sei se quero topar comigo um dia. E se eu não gostar do meu eu único? Poxa, é tão bacana ser várias garotas em uma só!
Quando a gente é adolescente, parece normal tentar se encaixar e seguir apenas um grupinho. Por exemplo, se seus amigos usam o cadarço do tênis de uma forma tal, você vai usar também. Se eles só tomam sorvete de morango, você nem olha para o de pistache. Isso faz parte da época em que nossa personalidade não está lá muito bem formada. Identificar-se com seus semelhantes, nem que seja com um punhado deles, é importante para sobreviver a esses anos tão complicados.
Mas depois a gente cresce e vê que não dá para ser uma coisa só na vida. Não dá para gostar apenas de punk rock, comer apenas pratos italianos e encher o guarda-roupa apenas com peças de algodão brancas. Daí é ficar muito monótono. E se tem uma coisa que eu odeio é monotonia. Quer dizer, dependendo do humor, um pouco de monotonia às vezes é bom. Tá vendo como sou trezentas também? Aliás, cada vez mais eu reparo em minhas múltiplas facetas só de ver minhas ações cotidianas...
Arrumar-se toda para sair e ficar o dia inteiro com pijama velho
A Vivi que está agora na frente do computador usando calça de moletom herdada da mãe, camiseta velha que um dia foi vermelha e cabelo desarrumado, é muito diferente daquela que tem fixação por combinar cores, toma cuidado para não exagerar nos acessórios e adora usar roupas bacanas.
Filosofar olhando a chuva e não sair nela para manter o penteado
A Vivi que fica olhando a janela embaçada e molhada e começa a pensar na vida, ou em como são gostosos o cheirinho de rua molhada e o barulho de pingos na vidraça, é muito diferente daquela que xinga a maldita chuva que teima em molhar a calça limpa e a droga da umidade que arrepia os cabelos.
Ouvir Beatles em silêncio e dançar Britney Spears pela casa
A Vivi que é transportada para um outro mundo ao colocar para tocar “Penny Lane”, e que fica em silêncio sepulcral para não perder nenhum acorde da perfeição, é muito diferente daquela que não consegue ficar parada ao ouvir “Baby One More Time” e sai dançando e cantando em voz alta a melodia grudenta.
Conhecer restaurantes novos e não dispensar uma coxinha da padaria de sempre
A Vivi que pega semanalmente o guia de restaurantes e escolhe um desconhecido que parece bacana para visitar no fim de semana, e que adora sabores novos e estranhos, é muito diferente daquela que não consegue evitar comprar uma coxinha de catupiry cada vez que vai buscar pão na padoca.
Ler Oscar Wilde e disputar revista de fofocas no consultório
A Vivi que chora ao ler pela centésima quinta vez “O Retrato de Dorian Gray”, e grifa a lápis as partes de que mais gosta no livro, é muito diferente daquela que fica esperando ansiosamente a dondoca à frente soltar a revista Caras antes que a dentista chegue na sala de espera e a chame para a consulta.
Conversar sobre mistérios da vida e emburrar por conta do esmalte descascado
A Vivi que engata em um papo sobre o futuro da raça humana, sobre a linha evolutiva da arte ou sobre as conseqüências da superexposição das pessoas com a Internet é muito diferente daquela que, em seguida, pode dar um grito de ódio e emburrar ao ver que a unha pintada tão cuidadosamente acabou de lascar.
Querer um apartamento moderno e sonhar com uma casa no campo estilo vovó
A Vivi que adora o burburinho urbano e que ama seu apartamento moderno e funcional no coração da cidade de São Paulo, perto de cinemas e restaurantes, é muito diferente daquela que sonha em ter uma casona no meio do mato, com parede de tijolinhos, fogão à lenha, colcha de retalhos, panelas de ágata e pomar.
Adorar sair com os amigos e amar ficar em casa sem abrir a boca
A Vivi que não dispensa horas de conversa fiada com os melhores amigos em uma mesa de bar, ou em qualquer outro recinto, é muito diferente daquela que muitas vezes só quer ficar em casa, vendo TV, enrodilhada no sofá, sem precisar – ou querer – abrir a boca para falar uma palavra sequer.
E você, leitor? É quantos?