sexta-feira, 21 de janeiro de 2005

Roberta estrela minha

Desde que éramos pirralhas de aparelhos nos dentes e blusões da escola amarrados na cintura. Essa é a medida do tempo em que conheço a Roberta. Para falar a verdade, cruzei com ela ainda antes. No sorteio das classes da terceira série, fui parar numa sala em que não conhecia ninguém – era a classe dela. Mas não fiz amizade com aquela magrela altona logo de cara.

A turma da terceira série “D”, sob o comando da tia Eliana, foi dividida em grupos de trabalho. Ela fazia parte do Centopéia Colorida e eu era do Baú do Arco-Íris (aliás, a única gaijin do Baú. Não sei porque, eu sempre fui cercada de amiguinhos japoneses). Eu, quietinha e absorta, achava o máximo aquela menina grandona e piadista, meio desajeitada e muito da aparecida. Ela queria ser atriz, ó que engraçado!

Aí, fomos para a quarta série em classes diferentes. E, na quinta série (a fase do aparelho e dos blusões na cintura), nos reunimos na mesma sala de novo. Minha melhor amiga era a Juliana (Nishizaki. Não disse?). As melhores amigas dela eram a Mika e a Tatiana. Mas, sabe Deus porque, de repente ela passou a ligar para minha casa todo dia.

Peraí... Ah, sim! Lembrei-me. A razão deste mistério não é de ciência exclusiva do Criador. As ligações tinham como tema central o Marcus Vinicius – um “repetente”, com toda a aura de rebeldia, perigo e mistério que a condição conferia a um garoto de 12 ou 13 anos no ginásio. Acontece que a Roberta estava apaixonada pelo rapazote, com toda a mistura de sofrimento, insegurança e imediatismo que a condição confere a uma garota de 11 anos.

Então, ela me ligava para que eu telefonasse para o Marcus e a recomendasse em boa palavra. (Provavelmente a Mika e a Tati estavam cansadas de fazê-lo). Eu, doida para ficar amiga daquela figura tão expansiva, não podia dizer não. E sabe no que deu? Virei uma boa amiga do Marcus por uma ou duas séries. E a melhor amiga da Roberta até hoje – 15 anos depois.

E sabe o que ela é hoje? Atriz! Não é engraçado? E sabe como eu dizia que ela ia se chamar quando virasse atriz? Roberta Estrela D’Alva. Pois é justamente esse nome que consta no registro de classe dela e nos programas das peças e projetos que ela encena.

Atualmente, eu vejo a Roberta bem menos do que gostaria. Convenhamos: depois de passar sete anos (da quinta série ao terceiro ano de colégio) se encontrando todos os dias e sentando em carteiras coladas – a partir das quais atirávamos papeizinhos nos cabelos compridos das meninas compenetradas ou discutíamos incômodos assuntos da pubescência em detalhes, através de bilhetes – qualquer freqüência de encontros pareceria mixa.

Enquanto crescíamos juntas, descobrimos que éramos almas gêmeas. Não no sentido daquela música cômica cantada pelo Fábio Jr., mas sim porque entendemos absolutamente tudo que se passa com a outra. Banzo de volta da praia. A danificação do sistema latidor do Pluto. A tristeza por tudo e por coisa alguma. Entendeu?

Viu? Eu não disse que tem coisas que só a gente sabe? E é assim que deve ser com cada par de amigos. Gente com quem você não tem que ficar se explicando, nem tem vergonha de tirar o sapato com a meia furada. Gente que tem passe livre ao seu diário de adolescente e pode ligar na sua casa 1:30 da manhã, só para conversar – e, estranhamente, bem naquele dia te encontra com insônia, entediada diante da tv e ao lado do telefone.

Sacramentamos nossa condição de soul sisters quando, certo dia na escola, olhamos ao mesmo tempo para uma caneta no corredor, entre minha carteira e a dela; apontamos para a esferográfica juntas; perguntamos ao mesmo tempo, uma para a outra, “É sua?”; respondemos como num jogral: “Não!”; e começamos a rir. Foi só uma caneta e uma coincidência, mas eu imaginei então que não largaria mais dessa menina.

E não larguei mesmo. Nem ela de mim. Ainda bem.

”Mania de não dormir
Sem antes ler um jornal
De só contar aumentado
Tudo que a gente faz
De guardar fósforo usado
Dentro da caixa outra vez
Mania é coisa que a gente tem
Mas não sabe porque
(...)
Dentre as manias que eu tenho
Uma é gostar de você”
Manias, F. Cavalcanti e C. Cavalcanti

*** Trecho de música escrito pela Roberta na minha agenda escolar em 3 de maio de 1994 ***

Clara McFly às 05:30 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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