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Bola de papel “Joga-se búzios, lê-se tarô, vê-se o futuro na borra de café. Não precisa falar nada; Fulana de Trás-as-Quinas sabe tudo. Traz a pessoa amada em sete dias. Faz e desfaz todo tipo de trabalho. Venha abrir seus caminhos e resolver todos – eu disse todos – os problemas da sua vida, da joanete à falta de dinheiro, do vazamento debaixo da pia à solidão. Consulta marcada pelo telefone 1234-5678. Próximo ao metrô Consolação. Não jogue esse folheto na via pública”. A maioria dos transeuntes que recebe papéis com esse tipo de texto (ou algo muito parecido com isso) costuma se livrar do empecilho na primeira lixeira que encontra. Eu não. Leio todos com atenção, me divirto um bocado e ainda por cima guardo todos numa coleção. Simplesmente porque eles são o máximo. Crença é que nem bunda: cada um tem a sua e, não obstante, o povo gosta de ficar botando reparo – e criticando ou incensando – a do alheio. Portanto, não escarneço das videntes e suas simpatias. O que acho engraçado mesmo são os folhetos. Mesmo que eles estejam repletos de erros crassos de português – o que, ao fim das contas, acaba por colaborar com a peculiaridade das folhinhas. Vejamos, por exemplo, o caso de Pai Horácio, que atende na Brigadeiro (rua famosa aqui em São Paulo). “A você que anda aflito sem emprego, sem paz e com o lado emocional abalado com problemas no amor sem paz no seu relacionamento amoroso se seu casamento vai indo mal, problemas no seu comércio, na sua empresa ou seu trabalho podemos resolver seus problemas com sigilo absoluto”. Ufa. Foram 48 palavras numa tacada só, separadas apenas por três vírgulas. Um recorde. O fato é que o folheto de Pai Horácio – que apesar de não ter domínio da língua portuguesa pode ser um velhinho do bem e muito talentoso em seu trabalho – é amarelo berrante. Vai ser difícil manter o “sigilo absoluto” se alguém te pegar com aquele papel colorido na mão. Já Irmã Nininha, lá da Teodoro, avisa em sua propaganda que há “várias conduções à porta”, bem debaixo da informação do endereço. Acho que a grande maioria dos videntes contemporâneos divide seus clientes com as empresas de transporte público. Mas o melhor desse folheto é o trecho “Enfim, Irmã Nininha, que reside há mais de 15 anos em residência própria, lhes indicará meios para solucionar dificuldades...” Quebrei a cabeça, mas não consegui descobrir o que tem a ver a escritura de uma residência com a garantia de seus poderes de vidência. No máximo, os fatores rimam. De que outra maneira poderiam se relacionar? Acho que vou lá na Irmã Nininha perguntar. Dificilmente os profissionais do ramo dispensam um título antes do nome, seja ele familiar como Pai e Irmã, ou de inspiração científica, como Professora. Pois a Professora Milena preferiu dar um ar poético a seu folheto. Ele começa assim: “Há momentos em que a alma se vê agoniada e se pergunta até quando? Tem sido difícil encontrar um ombro amigo, alguém disposto a te ouvir?” Bonito, isso. Mas se ela é a vidente, poxa, eu é que não vou falar nada. Quem tem de ouvir (as previsões, no caso) sou eu. É como destaca, em letras garrafais, o folheto da Sandra (uma das poucas a prescindir de um título): “NÃO PRECISA DIZER NADA ELA FALA TUDO”. Essa sim foi objetiva. E também comeu a vírgula. A maioria dos videntes trabalha de segunda a sábado, por até doze horas ao dia – pelo menos é o que me dizem as cartas, quer dizer, os folhetos. Preguiçosos eles não são. Também prometem mais ou menos as mesmas coisas: solução de problemas financeiros, espirituais e amorosos no geral, seguidos de duas ofertas bem específicas – fazer e desfazer qualquer trabalho e trazer a pessoa amada em sete dias. Com a quantidade de profissionais do ramo em ação, fica difícil se diferenciar. Quando algum deles estampar no folheto “trago a pessoa amada em 5, veja bem, CINCO dias – dois antes da concorrência!”, com certeza sairá na frente. Até lá, o remédio é passar o máximo de credibilidade possível – afinal, como em toda área do labor humano, essa também deve contar com gente honesta e com charlatões. Foi o que fez a Astróloga e Vidente Dona Jaqueline, recém-chegada da Bahia (ok, talvez agora ela já esteja passeando no shopping e falando “ôrra, meu”, já que esse folheto me caiu em mãos há um bom tempo). Diz o papel que Dona Jaqueline tem registro na SOUCESP (não tenho idéia do que signifique tal sigla, mas, convenhamos, isso tem cara de sigla) e na... URU (isso não tem cara de sigla). Certo. Acho que vou aproveitar minha consulta na Irmã Nininha para perguntar sobre isso também. ![]() Eu mato a cobra e mostro o pau (com a luxuosa ajuda de Vivi e seu scanner) |
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