quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Quando éramos reis

Ser o primeiro homem a pisar noutro planeta. Atingir o topo das paradas de sucesso. Criar uma teoria revolucionária. Essas são algumas das maneiras de imprimir seu nome nos livros de História. Tais realizações, enormes, são almejadas por quem já cresceu. Mas quando ainda contamos com a dentição de leite e pouco mais de um metro de altura, nossos sonhos são outros. E nossas conquistas, também.

Todos os pequenos eventos listados a seguir parecem mínimos vistos de agora. Mas pode crer que tiveram sobre nosso ego infantil (quase) o mesmo efeito de uma viagem pelo espaço, uma carreira no rock ou uma invenção genial. Quem não se lembra desses doces sabores, frutos das pequenas grandes conquistas de...

Tirar as rodinhas da bicicleta
O medo de cair vai embora (especialmente depois de umas cinco quedas e, para alguns, uns pares de pontos). Você descobre que talvez seu pai não seja lá muito confiável, pois prometeu que não ia soltar a garupa. Mas soltou – ainda bem, senão você nunca descobriria o ás do equilíbrio que morava aí dentro. Agora, as chaves de fenda do seu pai, que retirarão os acessórios infantis da sua magrela, são o passe para um grande universo a ser explorado. Sem rodinhas, é claro.

Ir à padaria sozinho
Nada como chegar ao balcão da padoca, subir naqueles apoiadores de pés destinados aos cachaceiros que ficam naqueles bancões altos bebendo, despejar (abrindo a mãozinha) um punhado de moedas, e dizer: “tio, me vê tudo isso de bala?”. Às vezes as missões incluíam pão e mortadela para sua mãe, e podiam ser remuneradas com o troco em doce. Ou refrigerante. Nesse caso, a glória final era levar o casco na cestinha da bicicleta, recém-amputada de suas rodinhas.

Passar a escrever com caneta
Na escola, tal privilégio era reservado apenas aos “do ginásio”. Durante os quatro longos anos do primário, restava a nós, pobres mortais, descer para o recreio em fila, chamar a professora de tia e, claro, escrever apenas com lápis – preto no. 2 ou algum da desejável, infindável e cremosa caixa de 36 cores. Mas qualquer um trocaria as mais de três dezenas de opções por uma enxuta Bic 4 Cores. Afinal, escrevendo com caneta poderíamos usar, ainda, o venerável “branquinho”.

Escolher suas próprias roupas
Depois dessa, nos sentimos no topo do mundo. Quando finalmente percebemos que saia de tule com macacão ou sapatilha de balé com calça e short de moletom por cima não são boas combinações, as mães costumam começar a nos deixar dar palpites no nosso próprio modelito – seja na loja ou diante do guarda-roupas. Pena que isso nos custa o blefe de fingir que saia balonê com biquíni não é a melhor roupa que alguém pode usar.

Tomar banho sozinho
Acontece em fases: primeiro, a mãe liga o chuveiro, põe o xampu na nossa mão e supervisiona a performance. Aprovados, seguimos para o patamar em que ela apenas abre o chuveiro e checa a limpeza depois (quantos litros de xampu vão para o ralo nessa?). Depois, só passamos por uma verificação do resultado final. Até que, gloriosos, ligamos a ducha, nos encarregamos da quantidade de xampu e respondemos por nossa própria condição ao fim da aventura.

No máximo, gritamos por ajuda com um tradicional “mãããããe, esqueci a toalha!”. Mas isso eu faço até hoje.

Clara McFly às 07:00 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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