Ontem foi a vez deles aparecerem. Mas muito se engana quem pensa que a nerdice é qualidade apenas do sexo masculino! Claro que garotas do gênero – pacote onde eu me incluo, e você vai saber por que mais pra frente – são mais difíceis de rotular. Afinal, seria um pouco estranho uma menina sair por aí com canetas no bolso ou com uma calculadora científica debaixo do braço. Digamos que é mais um espírito nerd do que um visual nerd. E isso acontece com muitos garotos também (que, apesar de não aparentarem, são mais nerds do que uma miniatura da Millenium Falcon em cima do monitor).
Voltando às moçoilas, temos diversos exemplares fictícios e reais desse jeitinho todo especial de ser. Velma, do desenho “Scooby-Doo”, é um símbolo do movimento. Enquanto todos os olhares masculinos se voltam para a Daphne, bem mais exuberante, a nerd vai conquistando aos poucos, preparando terreno, alçando vôos maiores. Velma é típica: usa saia plissada, meias três-quarto, sapato de boneca e, claro, um par de óculos daqueles. E é a pessoa mais corajosa, inteligente e perspicaz da turma, já reparou? Tenho certeza de que um dia algum rapaz bacana verá todas essas qualidades. E não será o bobão do Fred.
Temos ainda Andy Walsh, a eterna garota de rosa shocking, interpretada por Molly Ringwald no clássico oitentista. Andy é sensível, trabalhadora, estudiosa e vive com medo de não ter par no baile de formatura – angústia que passa na cabeça da maioria das nerds. Sabe a Daria, do desenho de mesmo nome? É uma de nós também, do gênio forte aos ossos de grafite e tinta. Conheço nerds longínguas, como a escritora japonesa Banana Yoshimoto, e também nerds próximas, como minha querida irmã e pupila Ana Lívia.
Garotas nerds possuem sutilezas próprias. Entre elas...
... gostam de gibis
Quem acha que gibi é coisa de menino, meus pêsames. As meninas também sabem apreciar um belo traço, uma boa história, uma revistinha que chega a ser tão profunda quanto um livro. E, cá entre nós, há um certo charme em personagens com balõezinhos em cima da cabeça, certo? É por isso mesmo que garotas nerds se apaixonam facilmente pelos heróis. Sandman e Gambit sabem do que estou falando.
... choram ao ouvir aquela música
Nós somos sensíveis até o último pelinho do braço. É por isso que nos emocionamos com coisas belas. Principalmente quando se trata de nossa música favorita. Não consegue segurar a lagriminha ao ouvir “I Won’t Stand In Your Way”, do Stray Cats? Ou “There’s Is A Light That Never Goes Out”, dos Smiths? Ou “Where’s My Mind”, do Pixies? Ou ainda “Gone”, do Ben Folds? Bem-vinda ao time, parceira.
... sabem trechos inteiros de filmes
Além da música, outra paixão de meninas nerds é o cinema. O bacana é que podemos assistir de “Blade” a um filme iraniano de uma criança que perdeu um maldito balão branco com a mesma atenção. E sabemos apreciar de Truffaut a Spielberg. O melhor de tudo, porém, é decorar os diálogos mais marcantes da sétima arte. E repassá-los cada vez que nos encontramos com as amigas. No idioma original.
... assistem a documentários na TV
Animal Planet, Discovery Channel, History Channel. Não conseguimos evitar. Precisamos saber qual é o animal mais saltador do mundo, senão não pegamos no sono. Precisamos descobrir o que existe no subterrâneo de Paris, senão perdemos o apetite. Precisamos conhecer a verdadeira identidade do inventor do sorvete de casquinha, senão emburramos. Graças a isso, temos assunto pra dar e vender.
... têm paixão por uma língua e/ou cultura diferente
Quando minha irmã me contou que ia começar um curso de japonês, fiquei orgulhosa. Isso sim é nerd. Não ficamos satisfeitas apenas com o que já sabemos, conhecemos e vemos nas ruas diariamente. É por isso que sempre estamos na seção de livros importados da livraria, ou experimentando um novo restaurante indiano do bairro ou buscamos o significado de ideogramas estranhos. Somos cidadãs do mundo.
... têm um pezinho no passado
Retrô é com a gente mesmo. Não queríamos ter nascido nos anos 50 – afinal, naquela época não existia computador, certo? Somos fruto do nosso tempo. Mas isso não quer dizer que não conseguimos apreciar detalhes de décadas passadas. Normalmente, gostamos de rockabilly, ou de Elvis Presley, ou de saias rodadas, ou de coisinhas kitsch como dados de pelúcia e almofadas de oncinha. Ou de tudo isso junto.
... fazem dos óculos acessórios fashion
Já que temos de usar óculos por conta dos anos debruçadas em livros, fazemos isso com orgulho. Ao invés de comprarmos um modelo insípido, optamos por aqueles com personalidade: aro grosso, colorido, strass... Fazem parte de nós, sabe? É por isso que também temos o acessório como uma espécie de fetiche. Já viu Rivers Cuomo, Elvis Costello, Buddy Holly e Ewan McGregor no filme “Abaixo o Amor”? Ai ai.
... possuem um blog
Ou qualquer outro projeto pessoal que misture as paixões por música, cinema e literatura. Nerds gostam de escrever, de ler, e sabem usar a Internet muito bem – como ferramenta para soltar a criatividade e as idéias mirabolantes. A rede também ajuda a encontrar aquela lojinha norte-americana cheia de mimos retrôs, ou a fazer amigos com gostos parecidos, ou a aprender a última novidade em programação de html.
E tem mais, muito mais! Cruzamos a cidade inteira para chegar ao único cinema onde passava “A Viagem de Chihiro” legendado. Somos viciadas em conspirações. Pegamos fila no McDonald's só para comprarmos o McLanche Feliz da Hello-Kitty. Sonhamos em trabalhar em uma livraria empoeirada ou em uma loja de discos de vinil usados. Gostamos de desenhar (e nunca mostramos o resultado a alguém). Achamos o Brad Pitt bonito, mas sabemos que o John Cusack é muito mais. Xi. Já é hora de parar de nos entregar assim, facinho...