segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Aprendiz da vida real

Telespectadores estão de olhos grudados no programa “O Aprendiz”, apresentado pelo publicitário e papador de loiras Roberto Justus. O homem que não pisca (já reparou no fenômeno?), ao que parece, está se achando a última bolacha do pacote – já que a Rede Record vem registrando os maiores índices de audiência de sua história. Eu até gosto do reality-show. Na verdade, não perco um! É que já passei por experiências na vida real que não devem nada ao mundo da TV.

Só quem enfrentou uma dinâmica de grupo para tentar uma vaga de emprego sabe do que estou falando. Sinceramente? Se houvesse uma câmera escondida na salinha onde ocorre a seleção (e eu até acho que há, assim os funcionários mais velhos podem rir da cara dos novatos), pronto, teríamos um programa tão emocionante, divertido e inusitado quanto o primo rico da Record. E, claro, sairia por poucas lascas e duraria apenas um dia por vez.

Já passei por duas dinâmicas, ambas para a mesma empresa – uma famosa livraria de São Paulo. Na primeira vez, caí como uma pata, enganada pela oportunidade de entrevista. Na segunda vez, devo admitir, foi um tantinho de vontade de encarar aquilo de novo só para ficar com raiva depois.

Certa tarde, uma mulher me ligou. Contou que havia recebido meu currículo e gostado. Perguntou se eu poderia participar de uma dinâmica no final da semana, a partir do meio-dia. Como não tinha nada para fazer mesmo, disse que topava. Só quando coloquei o fone no gancho, me caiu a ficha: “Por que será que ela disse dinâmica e não entrevista? Estranho...”. Mal sabia eu o que me aguardava.

Chegando lá, encontrei a sala cheia de outras garotas e um ou outro rapazote. Uma das “psicólogas” – sim, porque as pessoas que seriam os chefes do escolhido não estavam presentes, e sim “psicólogas” – informou que seríamos liberados apenas às 17 horas. Dado que ela gentilmente esqueceu de citar durante o telefonema. Alguns candidatos ficaram injuriados e se mandaram. Eu fiquei na minha, esperando o circo pegar fogo. E pegou, viu?

Primeiramente, me passaram uma folha com diversas questões. Pensei: “Bem, agora eles vão pedir para eu escrever minhas experiências, minhas aptidões, e avaliar a minha escrita”. Que nada! As perguntas eram: “Com quantas pessoas você mora?”; “Qual é o seu maior medo?”; “Qual é o sabor de sorvete de que você mais gosta?”; “Que árvore você gostaria de ser se pudesse escolher?” e outras indagações criativas. O fato de eu morar (na época) com três pessoas, ter medo de falar em público, gostar de sorvete de pistache e querer ser uma araucária entra onde especificamente no ambiente de uma livraria?

Outro exercício era contar uma história em grupo. Funcionava assim: a primeira vítima subia no palquinho e começava a narrar um fato. Tipo “Outro dia eu saí de casa para comprar fruta na feira e...”. Daí a psicóloga, munida de um apito (?!), dava a deixa para que ela descesse e entrasse outra pessoa no lugar, continuando a mesma linha de raciocínio. O problema é que a tia do apito também mostrava umas placas com palavras a serem encaixadas no meio da história. E eram termos absurdos como “caverna”, “punhal” e “anão”.

Teve mais, muito mais. Afinal, foram cinco horas. E em cinco horas dá para pintar, bordar e aprender a tocar castanhola! Fizemos desenhos livres a partir de formas pré-estipuladas. Montamos quebra-cabeças de 10 peças. Cantamos músicas. Nos abraçamos. Ouvimos cantos de baleias. Fingimos estar em uma selva. Rugimos.

Mas o pior ficou mesmo para o final. Todos os incautos, já cansadíssimos de tanta palhaçada e não vendo a hora de sair correndo dali gritando pelos corredores, sentaram em círculo. Repare: nunca uma coisa boa está por vir quando um bando de estranhos senta em círculo. A psicóloga, para melhorar, disse que não seríamos liberados enquanto não cumpríssemos aquela última tarefa. E a tarefa era... Brincar de “Escravos de Jó” com uma bolinha!

Ter passado por tudo isso e ainda assim não ser selecionada foi ferro. Achava que era um teste de sobrevivência e aqueles que agüentassem até o fim estavam empregados automaticamente por serem os mais fortes, bravos e pacientes. Tudo bem. Talvez a livraria estivesse em busca de um ipê amarelo, não de uma araucária.

Vivi Griswold às 10:09 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold