sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Eu fico bege...

Talvez muita gente ache absurdo alguém gastar texto falando de uma cor. Ainda mais falando desta cor. Ainda se fosse uma crônica sobre o azul (do céu), sobre o branco (da paz), sobre o verde (das matas) ou sobre o roxo (do Fusca 77 comprado pela minha vizinha), tudo bem. Mas bege? Sim, bege. A cor que não sai de moda – e que eu tanto detesto.

Detesto, ô se detesto! Quando sinto que fiquei muito surpresa e boquiaberta com qualquer coisa, digo logo “fiquei bege”. É a cor que mais demonstra um rosto pálido, paralisado, todo bobo. Bobo como a tal cor.

Ela não é um coringa, capaz de se adaptar a qualquer ambiente sem interferência. É um tom revoltante e sem a menor criatividade. É uma corzinha safada que, sabe-se lá por quê, tornou-se aceita em várias frentes.

Por exemplo: quando reformei o apartamento, fiz questão de enfiar a cara no catálogo da Suvinil. Escolhi azul-turquesa para a sala, verde no quarto, amarelo no atual dormitório de Sabrina, minha filhota. Aceitei algumas paredes brancas até – mas bege, nem pensar. Passei a vida morando em casas onde todo canto era tela para essa cor. Às vezes vinha disfarçada de “palha”, “pérola” e etc. Mas a mim ela não enganava: era bege, era chato, era até meio sujinho.

Era escolhido para cobrir os ambientes justamente por isso, aliás. Quem tinha crianças endemoniadas em trio, como os meus pais, sabia que pintar parede de branco era pedir para ver riscos em todo lado. Então optavam pelo bege, para disfarçar as marcas deixadas pela trupe. E assim vivemos nós, por anos e anos, no mundo dos sem-cor.

Tomei tanto terror pelo bege que não posso nem olhar para artigos assim. Tem carro que finge ser ocre, mas não é. Normalmente, Belina, Del Rey, Elba e toda sorte de calhambeques horrorosos, típicos dos anos 80, possuem versão nessa cor. Dá nojo. E dá vontade de levar ao lava-rápido e pedir ao menino que esfregue até ficar branco!

A verdade dolorosa é que não consigo sequer vestir isso aí. Mas, para desespero pleno, fui uma formanda do colegial – época em que o bege foi escolhido como cor padrão dos vestidos femininos. Podia ser rosa, preto, branco? Podia. As patricinhas, porém, decidiram que bege era “neutro”, e por isso poderia ser usado em muitas outras ocasiões. “Onde”, eu pensava? “Em um concurso de Miss Penitenciária”??

Porque só o departamento correcional paulista usa tanto bege ao fazer roupas. E até isso me causa espanto. Em presídios mais inteligentes, o detento veste um macacão laranja, bem “aceso”, capaz de identificá-lo até durante uma fuga na neblina. Já o meliante trajado de bege fica facilmente mesclado ao mundo. Pode inclusive fugir no caminhão de pudim, que ninguém há de notar.

Não escolho a corzinha insossa nem na hora de comprar roupa íntima. Ninguém vai ver (ou quase ninguém), mas mesmo assim mantenho o dito “cor da pele” afastado do meu ser. Pele eu já tenho muita, obrigada, não preciso usar lingerie da mesma padronagem sem-sal!

Que seja rosa, branca ou roxo-beliscão, mas nunca bege. Senão um dia posso sair sem nada “por baixo” por pura confusão. Afinal, eu SOU bege. E descobrir que posso escrever um texto de dez parágrafos sobre a tal cor me deixa ainda mais assim. Às vezes fico bege é comigo mesma, viu?

Fla Wonka às 05:23 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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