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Meus tempos de pó de giz Além de fazer panquecas bacanas, cultivar um canteiro de temperos, ser apreciadora confessa da J-Lo e escrever diariamente num site que eu adoro (tá, eu sei que opinião de mãe não conta...), tenho uma face pouco conhecida. Eu também sou professora. Quer dizer, fui. Há quem diga que, assim como os torcedores do Flamengo, uma vez professora, sempre professora. Então, ainda sou uma profissional do ensino, visto que me formei em colégio específico para isso. Sim, eu fui “normalista”, como diziam antigamente (já não no meu tempo, é bom deixar claro). Mas exerci o nobre cargo por cerca de apenas dois anos e meio. Depois, enfiei na cabeça de fazer jornalismo. Até hoje, tenho cá minhas dúvidas se meu destino não seria mesmo passar os dias usando um avental branco, com um bordado azul estampando meu nome no bolso cheio de melecas, oriundas de balinhas depositadas ali como presente dos alunos. Quando estava nos últimos anos do colegial, fiz um famigerado teste vocacional. Eu já estava decidida a prestar vestibular para Jornalismo. E o resultado confirmou que eu tinha uma certa habilidade para manejar palavras em veículos da mídia – mas em terceiro lugar. Minha primeira vocação, segundo o questionário, seria... Assistência Social! A segunda, a carreira do magistério. Mas na área de coordenação, acusou a psicóloga; não no duro dia-a-dia do chão da sala de aula . Acho que fui uma professora, assim, razoável. Não cheguei a alfabetizar: dei aulas para a pré-escola e ensinei inglês para crianças de sete a dez anos. Tampouco passei um ano todo com a mesma turma. Ainda fui assistente de classe, atendendo a petizes na mesma idade dos que me ouviram explicando o verbo to be. Para uma iniciante, me saí até que bem. Mas não sei se me transformaria numa grande professora, como hoje é minha mãe e como foram as mulheres à frente das filas nas quais estive durante os anos de primário: tia Marilda, tia Solange, tia Vera, tia Valéria e tia Eliana estão sempre nas minhas melhores lembranças. Como se vê, eu sou do tempo em aparentar os docentes ainda não era crime. Os tempos mudaram: as mestras agora são chamadas de professoras (ou “prô”, na simpática e esperada abreviação das crianças) e o mimeógrafo está em risco de extinção. Mas não na escola onde minha mãe leciona. No Centro Integrado Municipal Cleia Maria Teures de Souza/Antonio dos Santos Farias (ufa, que nomão!), vale a primeira premissa: pelos corredores, pipocam gritinhos monossilábicos de “prô”. Porém, o mimeógrafo ainda reina triunfante por lá. Pude conferir de perto numa missão especial cumprida hoje pela manhã. Sim, acordei às 6:40 – coisa que não fazia há oito anos, desde que me formei no colegial. Sim, peguei um bom pedaço de asfalto para atravessar a cidade e chegar ao Jardim Represa, periferia de São Bernardo cravada em meio a belas árvores e com cheiro de mato. Sim, me postei diante de trinta alunos, em duas turmas alternadas, para falar um bocadinho, que ironia!, da profissão pela qual abandonei o magistério: o Jornalismo. Minha mãe, talvez sabida do fascínio que ainda me causa ter uns pares de olhos e orelhas infantis fixos em mim, deixou-me brincar um pouco. Guiei as crianças – de mais ou menos nove anos e antes tidas como os alunos-problema da escola – a compor uma reportagem sobre um evento ocorrido por lá. O projeto deles é fazer um jornal interno. O que achei? Uma delícia, por um dia. Eles foram participativos, espertos e simpáticos. E sempre acho curiosíssimo perceber as nuances da construção do conhecimento pelas crianças. Mas a atenção requerida por três dezenas de pequenas vidas não é para qualquer um. Nem o barulho natural que eles fazem, se mexendo nas cadeiras como se tivessem bicho carpinteiro e derrubando oitenta e três lápis por minuto. É exaustivo ter que chamar alguém até três vezes para conseguir sua atenção, ou explicar todos os dias porque não é uma boa idéia correr feito um demente pelo pátio reservado para as crianças menores. Por enquanto, estou satisfeita com eventuais participações especiais, além de lidar com afilhados, primos e afins. No campo do trabalho, ainda prefiro meu computador. Ele nem sempre me obedece e tem os chiliques dele, mas garanto que é mais fácil de lidar que algumas figurinhas hiperativas e carimbadas presentes em toda sala. Ainda assim, talvez um dia eu volte para a beira do quadro, aquele lugar místico com cheiro do pó de giz. Ou mesmo para a frente de uma lousa branca – que, estranhamente, também cheira a giz para mim. Acho que são os efeitos mágicos do ambiente escolar, esse microcosmos pelo qual sou ainda apaixonada, seja como aluna, como convidada ou, quiçá, como prô. Clara McFly às 06:11 PM |
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