Nenhum pensamento parece fazer mais sentido do que este: jornalismo é como salsicha; uma vez que se vê como é feito, dá nojo pra sempre. Como bacharel da comunicação social, tive oportunidade de ficar maravilhada com algumas coberturas de notícia acompanhadas de pertinho. E também já vi os piores absurdos acontecerem. Conto (quase) tudo. Mas se alguém perguntar, não fui quem disse, hein?
Tudo mesmo não dá para contar. Teria meu registro cassado, nunca mais arrumaria emprego, ficaria mal falada até mesmo entre os mal falados. Resguardados os devidos nomes, posso contar uma coisinha ou outra aqui e chocar os leitores com alguns episódios presenciados ou sabidos por fonte fidedigna. Mas já aviso: se depois vocês não conseguirem mais ler revistas nem no consultório ou apanhar o jornal de domingo tendo ânsia, não digam ser minha a culpa.
Na revista automotiva...
Meus conhecidos do setor nunca fizeram isso – aliás, se fizessem, não teriam virado amigos. Mas eu sei que acontece, porque já vi de perto. Sabem aqueles testes comparativos de carangas? Não raro, o resultado do pega já é conhecido antes mesmo de começar a apuração. Quem é sério testa em pista para comprovar números, mas a maioria chuta um campeão pensando no anúncio de amanhã. E se for mentira, quero ser atropelada por uma Kombi em chamas.
No jornal diário...
A podridão corre solta. Ainda há o sujeito amante da notícia, que corre atrás de desvendar fatos. Duro é saber onde o sujeito está escondido – já que ele fica espremido entre tantos salafrários. Uma vez, certa editora me pegou pelo punho e perguntou sobre a matéria dos apartamentos valorizados de um certo bairro de São Paulo. Eu disse que a pauta estava empacada, porque a notícia não existia de fato – os imóveis do lugar tinham preço idêntico a regiões vizinhas, não eram mais valorizados. Ao que escutei: “se vira, filhota. Uma amiga minha mora lá e disse que o apartamento dela vale um bocado, sim! Toma, liga pra ela e usa como fonte”. Então meu castelinho ruiu: não é que existia mesmo jornalista propenso a entrevistar só camaradas, inventando reportagens mentirosas para dar uma força à transação imobiliária do colega? Naquele dia, tomei um trago de tubaína pra esquecer...
Na revista de culinária...
Não há coisa muito grave, só mesmo peculiaridades. Por exemplo: nunca creiam nas fotos ilustrando receitas. O lombinho recebe uma boa pincelada de óleo antes do clique, para parecer macio e suculento. Os sorvetes são feitos de massinha, as frutas são enceradas, molhos ganham aditivos. Nada é o que aparenta. Pobre repórter, que quer experimentar tudo aqui na sessão de fotos, mas não pode. Droga, já comi muita parafina pensando ser chocolate.
Na revista semanal...
Era uma vez uma eleição. Uma moça nordestina influente, filha de ex-presidente e então governadora, era pretensa candidata ao cargo executivo máximo da nação. Para ajudar, ainda era bonita e tinha olhos azuis como o céu do Maranhão. Quem a conhecia, porém, não levava muita fé, porque ela tinha no currículo manchas e apadrinhamentos muito suspeitos. Pois o editor-chefe de uma grande revista semanal, quiçá a maior de todas, foi categórico na reunião de pauta com seus colegas repórteres. Mandou todo mundo entrar na saleta e sentar. A primeira frase dita? “Só para deixar claro, é interessante para a direção aqui da editora que Roseana vença a eleição”. Na semana seguinte, a bela filha de Sarney era capa da revista, sorridente, sob a manchete “O Furacão Roseana”. Pff! Dias mais tarde ela foi impedida de concorrer ao pleito sob acusação de desvio de dinheiro público. Sorte danada para nós que a fantástica fábrica de salsicha não funciona a pleno vapor.
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Querido ex-Chefe,
Escrevo por pura saudade – não exatamente de você, mas do seu hilário senso de humor involuntário. Lembra quando você comandava aquele site onde trabalhávamos eu, Vivi e Clarissa? Sim, nós tínhamos ganas de arrancar suas entranhas com um gancho, mas rolamos de rir por várias vezes. Principalmente quando você disse que a dupla sertaneja se chamava “ChiRtãozinho e Xororó” e que Lênin era um CZAR russo. Cara, quanta saudade... Sua falta de noção chega a apertar o coração.
Mas agora é sério: você sabe que, após a demissão, ficamos muito mais amigas e montamos um site dez vezes melhor que o seu? Pois é, menino! E temos até uma Promoção de Natal do Garotas! Só é preciso escrever uma carta para qualquer pessoa, ser, entidade. Pode até escrever pro Wladimir Lênin. O czar, saca? Ah, sim, a gente aceita de tudo por aqui...