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Nena Nena, ao receber visitas na véspera do casamento da minha mãe com meu pai, decidiu simplesmente desembrulhar e estrear a louça que tinha sido dada de presente aos pombinhos. Mamãe ficou fula da vida. Mas eu achei engraçado quando soube do fato, décadas mais tarde. Nena mudou bastante depois da mancada, pelo menos para mim. Quando eu era pequenininha, ela me fazia dormir cantando “Pequeno Mundo”, aquela singela canção que diz “Para ser feliz/ é preciso ter/ este céu azul/ esta imensidão/ é fazer das tristezas/ estrelas a mais/ e do pranto uma canção/ Há um mundo bem melhor/ todo feito pra você/ é um mundo pequenino/ que a ternura fez”. Atendia a todos os meus pedidos de bis, ainda que tenha demorado um pouco para entender que “Aumúm”, no meu limitado vocabulário, era o nome da música. Ela fazia meus olhos arregalarem toda vez em que contava seu encontro com o saci. Nena jurava de pé junto que havia visto a aparição folclórica quando era jovem. Com a cara mais séria do mundo, relatava ter olhado para um matagal e visto o gorro vermelho indo para cima e para baixo, no movimento ocasionado pelo modo de se andar em uma perna só. Nena não sabia cozinhar bem. Mas havia exceções: eu adorava o purê que ela fazia, misturando batata com mandioquinha. Tentei repetir várias vezes a receita simples, mas nunca ficou igual. Sua maior especialidade culinária, porém, era bolinho de chuva. Os quitutes saíam da frigideira como bolinhas perfeitamente redondas, sem respingo algum. Os meus, quando arrisco, saem em formato de ameba. Hoje não se fazem mais costureiras de mão cheia e talentosa como Nena. Se eu assistisse a uma novela e comentasse sobre a roupa da personagem de que havia gostado, pouco tempo depois lá vinha ela com sua impecável versão da vestimenta. Foi Nena quem fez o vestido de casamento da minha prima e o meu de daminha de honra (uma cópia em miniatura da noiva). Ela também atualizava semanalmente o guarda-roupa da minha Barbie. As meninas da rua ficavam roendo os cotovelos de inveja. Durante minha infância, Nena morava em São Vicente, litoral de São Paulo. Era um dos meus destinos em cada período de férias. Lembro-me do cheiro da garagem do prédio, onde entrávamos para lavar a areia do pé na torneira antes de pisar no elevador. Lembro-me das almofadas no sofá, gastas, que arranhavam a minha cara. E da prainha, destino certo de senhoras e crianças – era um pedaço de mar calmo, quase sem ondas. Foi Nena quem me deu o primeiro sutiã da minha vida. Na época, nem peito eu tinha. Fiquei vermelha, envergonhada com o presente, mas por dentro vibrei. Inclusive recriei a minha própria e verdadeira versão do comercial da Valisère na frente do espelho naquele dia. Mesmo depois de eu ter crescido e de meus pais terem se separado, Nena ia nos visitar com freqüência quase religiosa. Chegava, pedia um copo d’água, sentava-se no sofá e abria a bolsa. De dentro, tirava um saco de papel cheio de chocolates, balas e dadinho. Toda vez. Mesmo eu já batendo na casa dos 20 anos de idade. Depois de crescida, reparei outras particularidades de Nena que meu olhar infantil havia deixado passar. Ela era extremamente noveleira, mas só admitiria o fato sob a mira de um revólver. Era daquelas que, a cada último capítulo da trama, sentenciava “essa é a última que eu acompanho!”. Na estréia do próximo folhetim, lá estava ela na frente da televisão, xingando os vilões e chorando com as mocinhas. Nena tinha um par de pernas sempre à mostra que botava inveja em qualquer garota. Vivia arrumada e penteada. Usava anel no dedo e esmalte na unha. Sempre que começava a contar um fato, se embananava com datas. Falava assim: “Ontem eu... Peraí... Foi ontem? Não, ontem eu fui na casa da Valéria... Então foi antes de ontem... Será?.... Nossa, mas faz tanto tempo assim?...”. Até chegar aos finalmentes, demorava. Era um clássico de Nena. Quando fui me despedir dela durante uma de suas visitas costumeiras, fiquei com um fortíssimo e desconfortável nó na garganta. Achei estranho e, após lascar um beijo em sua bochecha, apertá-la num forte abraço e dizer “até mais, vó!”, fiquei pensativa. Mal sabia que não haveria “até mais”. Foi a última vez em que a vi. Eu nunca contei sobre a premonição para ninguém. Mas é que hoje, pra variar, me bateu uma saudade da Nena...
Vó Nena, vou aparecer na televisão, acredita? |
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