terça-feira, 30 de novembro de 2004

É guerra!

Eu estava acuada numa casa semi-destruída, de paredes rotas e pichadas. No escuro, tentava avançar enquanto zuniam tiros lá fora. Mal se podia ver o ambiente e eu não sabia o que me esperava depois que atravessasse pela porta ao fundo do cômodo. Estava quase lá, quando ouvi o tiro e a voz do Douglas atrás: “tá fora, Clarissa!”. Meu próprio marido deu uma de Jeremias-maconheiro-sem-vergonha, me acertou pelas costas e me tirou do primeiro game de paintball, sábado passado.

Eu nunca tinha participado dessa modalidade adulta das brincadeiras de guerrinha infantis, que usavam bolas de areia, tomates ou bexigas cheias d’água como munição. No campo de combate do paintball, ao invés de atirar com as mãos como nos bons tempos pueris, tem armas de verdade – ou quase isso, já que elas disparam bolotas cheias de tinta (laranja, no caso do campo onde jogamos).

E como disparam. Quando os projéteis coloridos pegam no colete, beleza. O problema é que o colete só protege o peito e as costas. Parecem os locais mais fáceis de acertar, mas juro que não são. O que eu tomei de tiro no ladinho do corpo (e olha que, de lado, eu quase desapareço!) não foi brincadeira. O pior: dói. Na hora, bastante. Depois, aquela dorzinha chata de hematomas que vão trocando de cor com os dias. Hoje, os meus estão num tom roxo-amarelado muito interessante.

Jogar paintball serviu ao menos para duas coisas. Uma foi bancar o Lee Harvey Oswald e acertar a cabeça do leitor e amigo Kanangô-Kennedy atrás da orelha, bem no lugar em que a bala mágica pegou o presidente norte-americano. Passei a acreditar um pouco mais na possibilidade do maluco ter mesmo dado cabo do homem. Afinal, se eu consegui acertar ali no escuro, nervosa, com uma maldita máscara embaçada que servia para proteger o rosto (mas também fechava a visão) e sem ter jamais atirado com arma alguma, porque Lee não pode? Sorte, gente! Sorte!

Outra foi perceber que, se fosse enviada para a guerra, provavelmente faria que nem o Corey Glover em “Platoon”: atiraria no meu próprio pé para sair dali rapidinho. Que me perdoem a confissão covarde, mas a não ser que tentem invadir minha casa, me ver pegando em armas vai ser um negócio difícil. Vão por mim: num simples e (quase) inofensivo jogo de paintball, passei mal (mas acertei o Kanangô!).

Não conseguia me locomover direito, de puro medo de ser surpreendida. Não enxergava bem. Não sabia de onde o tiro podia vir. Não tinha gravado na memória o mapa do campo de combate, apesar do rápido reconhecimento permitido pelo instrutor (que, claro, não foi suficiente para alguém que erra o lado da saída do banheiro).

Ainda por cima, se para mim era difícil identificar os outros jogadores – muitos quase da mesma altura e constituição –, para todo mundo era para lá de simples identificar essa pulga que vos escreve, mesmo no escuro. Não tinha outra garota magrela em campo. E dá-lhe bala.

Ouvir sua própria respiração, encolhida num canto escuro e segurando uma arma (mesmo que de paintball), pode deixar os nervos de qualquer um em frangalhos. Talvez minha imaginação fértil tenha me ajudado a comparar demais um jogo de paintball a um combate real, mas acho que é para isso mesmo que o joguinho serve (além de lhe pintar de hematomas multicoloridos).

Daí me lembrei de uma sugestão feita por alguém para terminar com as guerras: o soldado só pode ir para o front se a mãe dele deixar. Na falta de mãe, vale uma parenta mais próxima: tia, avó, madrinha, irmã. A solução genialmente ingênua acabaria com essa porcaria. E todo mundo poderia descontar os instintos de agressividade e conquista territorial apenas no inofensivo (ou quase isso) paintball.



paitballfinal.JPG
Antes, parece o time da SWAT. Depois, um bando de maltrapilhos atropelados


* * * * * *

Corre, Forrest, corre!

Forrest foi para a guerra, mas o pobre deve ter sido protegido por sua inocência inabalável – ou pela capacidade de correr. E muito. Aliás, é isso que você deve fazer: correr para participar da Promoção de Natal do Garotas. É só até dia 10 de dezembro, hein? Estamos esperando sua carta e você também pode esperar ter sua epístola publicada no site ou, quiçá, levar para casa uma cesta de brinquedos.

Clara McFly às 06:08 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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