terça-feira, 30 de novembro de 2004

Ah, Clarissa!

A gente está no maior bate-papo, consumindo altas doses de açúcar e fazendo o cérebro funcionar feito turbina de Itaipu. Muitas risadas, muita diversão, muitas idéias – tudo para finalmente deixarmos de ameaça e dominarmos o planeta de fato! E então a corrente se quebra. Clarissa passa a mão na xícara de café, dá um sorrisinho meio de lado e nos volta as costas. Lá vai ela fumar.

Não sou anti-tabagista, não. Ou melhor: não sou em parte. Acredito que todo mundo tem direito a experimentar o que quiser e achar satisfação onde se sentir confortável. Há gente louca por doce, que também prejudica o organismo se consumido em excesso. Existe quem seja fanático por acelerar carros, e isso não é lá muito saudável também, se pensarmos numa bola de aço torcido encaixada no poste. Tem gente viciada em TV, em birita, em computador, em mulher da vida. Tudo pode ser tão prejudicial quanto cigarro, eu acho. Mas nada fede como aquele diabo.

Clarissa é a “Garota que Diz Ni e Fuma”. Ela é muito mais que isso, lógico. Sabe fazer panquecas deliciosas, opera milagres com o pouco dinheiro da nossa firma, cultiva um lindo vaso de temperos, cura problemas com dois dedos de prosa, mata a gente de rir quando tentar argumentar sobre o talento de Jennifer Lopez. É uma das minhas melhores amigas, mas seria foco de adoração mesmo se não me desse muita bola. Ela fuma, sim. E isso dá medo.

No momento, a loira bem deve estar lendo essa bobagem toda e pensando “que saco, por que pegam tanto no meu pé?”. Bom, ela também pode estar pensando “se eu ganhasse na Lotomania, largaria essas duas e me mandaria pra Cuba”. Ok, isso não vem ao caso. Todo fumante se aborrece quando falam sobre seu hábito de pitar. Mas como deixar quieto sabendo o que isso pode fazer às pessoas que mais amamos?

No último sábado, o diretor Michael Moore estava no canal Sony em um episódio do programa “The Awful Truth”. Na atração, ele vai às ruas encarar de frente, com muito sarcasmo, donos de empresas, políticos e gente escrota em geral que só quer ganhar em cima de outrem. Pois no último quadro, Moore levou um bando de velhinhos às portas da Phillip Morris, para agradecer o “grande bem” que a fabricante de cigarros fez àquela turma.

Todos foram fumantes no tempo em que propagandas de TV dizia sonoramente “este cigarro não irrita os pulmões”. Precisaram fazer laringotomia, uma cirurgia que remove parte da laringe em quem teve câncer. Além de perder um teco do corpo, eles ficaram com um buraco na garganta e hoje falam por canudos – ganhando voz de Darth Vader da maneira mais sem-graça que há. Fiquei chocada e muito preocupada. Não quero conversar com a Clarinha por um canudo! Temos muito a discutir!

Tenho certeza que até isso nossa loira tiraria de letra, fazendo piadas sobre ter voz de computador, mas eu não quero. Sei que ela fuma porque gosta – e até faz isso pouco, apenas umas quatro vezes ao dia. Além disso, Clara é delicadíssima e só fuma ao ar livre, para não incomodar os demais. Mesmo assim, fico inquieta.

Curioso é que, logo após o programa de Michael Moore, troquei de canal e parei no desfile de futilidade comandado por Amaury Jr. O homem de sorriso permanente estava entrevistando uma brasileira fora do país – Estados Unidos, acho. Ela contava, entre gargalhadas, que estava no “programa de milhagem da Marlboro”.

Explico: a cada maço fumado, a tia acumulava 5 pontos. Juntando 2.000, ganhava artigos finos como casaco, relógio ou um utilíssimo jogo de baralho em caixa de rádica. A conclusão do apresentador-e-gênio? “Dá até vontade de voltar a fumar!”. Bem que ele deveria mesmo. Falando por um aparelhinho alojado na goela, ficaria mais difícil ter um programa televisivo e dizer tanta bobagem.

Já a Clarissa, essa sempre vai ser alvo das minhas preces por uma saúde perfeita – ou pra que comece a achar aquele cilindrinho do mal um nojo. E quando largar as reuniões do trio, apanhar o café e seguir em direção ao fumo, vou protestar mesmo! Pára, vai, Clarissa? Senão a dominação mundial atrasa, poxa!

Fla Wonka às 02:36 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold