quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Menina Superpoderosa

Eu queria ser Jane Austen. Para alguns, o nome pode soar estranho e suscitar perguntas como “Hum, Jane Austen... Era a esposa do Homem de Seis Milhões de Dólares ou a garota do Quarteto Fantástico?”. Nem uma, nem outra. Para dizer a verdade, Jane era uma caipira reclusa, perdida no meio da família grande em uma recôndita propriedade inglesa lá dos idos de “1700 e minha bisavó surfando”. Mas ela tinha o superpoder que eu queria ter.

Jane Austen, agora muitos devem estar lembrando melhor, era uma escritora. Bom, vejamos: ela não era reconhecida por isso, não dava autógrafos nas estradas de terra por onde circulava de carroça e nem mesmo vendeu milhões de cópias. Ao menos enquanto era viva.

A moça nasceu em 1775 no sul da Inglaterra, em uma cidadezinha rural chamada Steventon. Jane era filha de um pastor e tinha seis irmãos e uma irmã mais velha, Cassandra, que ela adorava. Para passar o tempo e dar um tempo dos bordados e do piano, a mocinha começou a escrever. Aos 14 anos, já desenvolvia o talento com a temática das redondezas – criando contos engraçadinhos sobre fofocas de vila, relações arranjadas, a pacata vida no campo.

O que era apenas um passatempo fez Jane Austen virar a segunda escritora britânica de maior importância no planeta em todos os tempos, atrás apenas de um tal William Shakespeare. Seus livros são peças raríssimas que contam uma parte escondida da trajetória inglesa, a das pessoas que viviam longe de Londres.

Mas pensam que ela chegou ali usando palavrório comprido e carola? Que nada. Jane era muito bem humorada, fazendo sátiras discretas e divertidas do cotidiano. Irônica demais, podia desancar até a forma da sociedade contrair matrimônio, mas sem quase ninguém perceber. Em “Orgulho e Preconceito”, ela escreve que "É uma verdade universalmente aceita que um homem solteiro, em posse de uma avultada fortuna, precisa de uma esposa." Praticamente um tapa com luva de pelica.

Jane Austen era de família gabaritada, mas não podre de ricaça. Apesar de ter recebido muitas propostas, nunca se casou. Provavelmente, porque pensava do mesmo jeitinho que escrevia: armado, para unir propriedades e manter aparências, nem ferrando. Aos 30 anos ela perdeu o pai e foi viver com a mãe e a irmã em num chalé cedido por um dos irmãos. De lá não saiu mais.

Seus três livros mais famosos – “Orgulho e Preconceito”, “Razão e Sensibilidade” e “Emma” – foram publicados enquanto Jane ainda era viva, mas não ficaram muito conhecidos. Depois que ela morreu, em 1817, outras obras suas ainda foram impressas. E depois ganharam o mundo, tornaram-se best-sellers, viraram filmes premiados com Oscar e inspiraram uma centena de outras histórias. Poxa, até “As Patricinhas de Beverly Hills” é paródia de Jane Austen!

Como uma moça que mal saía de casa conseguiu observar e traduzir tão bem toda uma época e seus sentimentos? Como, sendo catequizada para virar esposa e mãe, ela deu o drible da vaca e viveu do jeito que achava melhor? De onde vinha tanto bom humor e malícia? Suponho que do talento nato. Aquele poder secreto.

A única imagem de Jane Austen disponível é um retrato feito por Cassandra. Como toda portadora de magia especial, sua identidade secreta ficou guardada. O superpoder da moça? Escrever, claro. O melhor de todos eles – e o que eu quero ter.

Jane_Austen.jpg
Por trás de tanta renda, existia uma superpoderosa
* * * * * *

Querido Senhor Darcy:

Sabe, existem muitos homens orgulhosos como você hoje em dia. Por sinal, também existem muitas mulheres preconceituosas como Elizabeth Bennet, sua paixonite aguda de "Orgulho e Preconceito". Ou ela era orgulhosa e você o preconceituoso? Ah, pouco importa...

O que eu queria, com esta cartinha, era lhe convidar para participar da Promoção de Natal do Garotas. Você pode escrever para quem quiser! Pode, inclusive, escrever para Jane Austen e pedir a ela que faça Elizabeth morrer no final do livro por um ataque de abelhas africanas! Assim a chatinha deixa de pegar no seu pé! O concurso está valendo e esperando gente criativa como você se manifestar.

Um beijo, bonitão!

Fla Wonka às 02:29 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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