quarta-feira, 24 de novembro de 2004

Serendipidade

Talvez não exista essa tradução ao pé da letra para a bela palavra em inglês serendipity. Assim como nossa língua portuguesa dá nome ao sentimento de pensar nostalgicamente em alguém, alguma coisa ou algum lugar (nossa exclusiva “saudade”), o idioma bretão nomeia uma grande coincidência que pode mudar uma vida – aquela coisa de destino, de acontecimentos escritos nas estrelas. Se nosso cotidiano é cheio de saudade, também é repleto de serendipidade. Basta reparar.

A jovem Ann estava dentro de um ônibus lotado lá nos idos da década de 50. Ao tentar se espremer entre os demais passageiros, o broche do seu casaco ficou preso em um moço. Ela, envergonhada e apressada, tentou tirar em vão a jóia enroscada na roupa do completo estranho. Os dois tiveram de descer grudados do ônibus para desfazer aquele momento constrangedor com mais calma. Uma vez libertos, Peter convidou Ann para jantar. Os dois, amigos da minha família, estão casados desde então. E se Peter tivesse perdido aquele ônibus? E se Ann tivesse escolhido um colar como acessório?

Em um dia de outubro deste ano, a cidade de São Paulo foi castigada por uma chuva torrencial. Não era a primeira vez que isso acontecia, nem seria a última. Mas algo aconteceu com o motoboy Marcos Vinícius. Enquanto ele cruzava uma movimentava avenida tentando chegar a seu destino, uma árvore caiu e o atingiu em cheio. Marcos Vinícius morreu na hora. E se ele tivesse tomado uma xícara de café e se atrasado cinco minutos? E se outro motoboy tivesse sido escolhido para aquele serviço em particular? Nunca saberemos. O que sabemos é... aconteceu.

Quando ocorre um desastre de grandes proporções, ouvimos dezenas de casos de serendipidade. No fatídico 11 de setembro de 2001, os telejornais ocuparam-se em mostrar um funcionário do World Trade Center que decidiu, naquele dia, fazer um caminho diferente do normal. Pegou trânsito e acabou se atrasando para seu trabalho no escritório em um dos andares mais altos – aqueles de onde era impossível escapar. A cada queda de avião de passageiro, ficamos sabendo de histórias de pessoas que eram para fazer número na lista de vítimas do vôo, mas foram salvas pelo cachorro que adoeceu ou pelo despertador que não tocou.

E eu? Bem, talvez se não tivesse tido um tio com bom gosto musical e que mostrou uma paciência de Jó para com a sobrinha pequena, eu poderia ter virado amante de pagode. Só fico pensando que essa aparentemente pequenina e insignificante mudança poderia ter revirado minha vida inteira. Teria outros amigos, outro namorado, outra visão de mundo. Como seria a Vivi pagodeira, hein? Talvez fosse loira tingida, adorasse tomar sol e não dispensasse uma cerveja. Ou seja, outra pessoa.

Durante os resultados do vestibular para jornalismo, fiz matrícula na Unesp lá de Bauru. Depois, desisti para me matricular em publicidade na ESPM. Já estava comparecendo às aulas quando recebi um telegrama da PUC. Eu tinha sido uma parte da diminuta raspa de candidatos que conseguiram entrar na última lista de chamada. De pensar que foi na faculdade lá de Perdizes que conheci meu melhor amigo e, mais tarde, meu namorado. Será que teríamos nos encontrado de outra forma? Ou haveria um outro rapaz reservado para mim?

Tenho certas ressalvas quando penso se acredito em destino. É meio desconfortável imaginar que nossa vida já está traçada. Não parece que somos marionetes? Ou os últimos a saber do que está para acontecer? Ainda assim, adoro esses pequenos mistérios do dia-a-dia. E adoro essa palavra, serendipidade.

Vivi Griswold às 10:42 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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