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O vizinho e a vizinha Morar em um apartamento grudado em outros apartamentos por todos os lados tem suas desvantagens. Quadros sendo pregados a marteladas quando você quer tirar aquele cochilo gostoso depois do almoço é uma. Presentes como videokê sendo usados em último volume por toda a extensão do fim-de-semana é outra. Mas eu aceitaria calada e feliz as sessões de barulhos, ruídos e músicas ruins se os gemidos e gritos diminuíssem um tantinho. Sim. Gemidos e gritos. Ouvir vizinhos transando até que pode ser uma experiência estimulante para alguns. Mas não para mim. Eu fico encabulada, envergonhada e não consigo prosseguir fazendo tarefa alguma – seja dormir, ler ou assistir televisão – fingindo que nada está acontecendo lá em cima. Ou lá do lado. Ou em algum lugar, uma vez que eu não sei de onde vem a incômoda sinfonia. Eu só sei que parece que o casal está aqui dentro de casa. E isso não é uma sensação agradável. Antes que alguém aí me chame de carola, beata, retrógrada e outros adjetivos ruins, deixe-me me explicar a natureza dos gemidos e gritos. São muito altos. Muito. Pegue um filme pornô (mas não aqueles levezinhos do “Cine Privê” não), aumente o volume até o talo e bote para passar na hora do jantar, enquanto sua sogra e seu sogro estão lhe visitando. Pronto, agora você pegou o drama. Acho lindo que as pessoas se amem com tanto ardor, e quem falar que não gosta da coisa é doente da cabeça (ou de algum outro lugar da anatomia humana). Não é esse o ponto, em absoluto. Então a pedra se encontra em outro sapato: dá para fazer tudo, tudinho, e muito bem feito, sem precisar demonstrar para o prédio inteiro que existe uma Jenna Jameson ou um Fábio Scorpion habitando sua alma. Ainda mais quando se mora em um dos cinco apartamentos espalhados por andar. Se fosse uma festança com axé, eu poderia bater lá e reclamar. Se fosse uma furadeira ligada de madrugada, eu poderia mandar um e-mail para a síndica. Se fosse uma mudança fora de hora, eu poderia avisar a portaria. Quando é s-e-x-o, contudo, não há como escapar. Imagine que situação constrangedora. Mas pior que tudo isso é ser incluída no que há de mais pessoal e íntimo entre duas pessoas. Não é para eu estar ouvindo. O vizinho e a vizinha, porém, não me deixam soluções possíveis. Quando os primeiros “aaais” compassados acontecem, seguido pelos “nhec-nhecs” do estrado da cama, é impossível desligar. Infelizmente, também, é impossível não imaginar a cena. Daí fica fácil perder a linha do livro que estava tentando ler, ou não entender o final do programa que estava tentando assistir. De repente, me pego torcendo “vai, rapaz, acabe com isso!” ou “filhota, não pára, anda logo!” para eu poder retomar as atividades em paz. Com o grau de intimidade que foi imposto entre eu e eles, poderia inclusive abrir a geladeira do casal sem avisar, ou tomar banho lá quando o aquecedor aqui de casa pifa. E a minha cara quando pego elevador com um moço e uma moça? Fico olhando e avaliando se são eles – tentando comparar as vozes de frases cotidianas como “hoje você me busca no trabalho?” aos “aaais” comprometedores. Se descobrisse quem é o casal, não sei o que gostaria de dizer. Parabéns pelo fôlego, talvez. Ou daria os pêsames pelo longo período de estiagem que ocorreu. Acho que eles brigaram. Mas agora fizeram as pazes. Os gemidos me contaram, sabe? Vivi Griswold às 10:02 AM |
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