Idiossincrasia é uma daquelas palavras de som horroroso, como masturbação, escrúpulo e cheiroso. Mas, também como as supracitadas, não quer dizer nada de mal. Significa, segundo sêo Aurélio, “maneira de ver, sentir, reagir, própria de cada pessoa” – ou seja, aquelas coisas mínimas que nos tornam únicos.
No amplo espectro das “coisas que nos tornam únicos”, cabem desde traços mais sérios e aparentes, como a cor dos cabelos, altura, peso, configuração facial e a intolerância a certas comidas, até as manias e capacidades mais sutis, tais quais ser capaz de dobrar a língua, ter mania de guardar fósforo usado dentro da caixa ou sentir ganas de matar o infeliz que faz isso com as suas embalagens de Fiat Lux.
Descobrir as idiossincrasias alheias é como escavar sítios arqueológicos. Precisa de paciência, tempo e preparação para topar com coisinhas irritantemente miúdas – ou para se divertir à beça com manias inofensivas e cômicas. Mais difícil ainda é prestar atenção nas suas próprias particularidades.
Mas cuidado. Notar e anotar as pequenas pecinhas do seu próprio quebra-cabeça pode ser surpreendente. Depois de pôr a mim mesma sob atenta lupa, tive um pouco de medo de estar só nalgumas idio... tices.
Sou só eu ou mais alguém aí fora...
... às vezes esquece com quem teve uma determinada conversa?
Depois de um fim-de-semana em que encontrei muita gente diferente, em ocasiões diversas, me pego sem saber para quem falei que tomar leite era coisa de bezerro e com quem entabulei uma longa discussão sobre viajar para Cuba antes que Fidel caia – e de vez.
... confunde se sonhou com algo ou se aquilo aconteceu?
Tal sandice ocorre especialmente na hora do meu melhor sono, que é pela manhã. Se alguém me desperta às 9:30 da madrugada, com um telefonema avisando que um tsunami vai varrer São Bernardo, posso acordar depois e pensar: puxa, acho que eu sonhei que isso ia acontecer!
... perde coisas misteriosamente ao derrubá-las?
É inacreditável. Da tampinha da caneta na aula de espanhol a um tequinho da cebola que estou cortando e escapa da tábua: basta tocar o chão e esses objetos são misteriosamente tragado pelo solo. Olho embaixo da pia, entre as carteiras, para um lado, para outro... e nada. Nunca mais.
... não consegue reconhecer as músicas quando as pega no meio?
Podem ser os solos de canções que adoro, gravo e canto a letra de cor e salteado. Se eu pegá-las no meio, mudando de estação, demoro pelo menos até o cantor recomeçar a soltar a voz para reconhecer a dita-cuja. Entrementes, a agonia é grande – mas inevitável.
... considera que a tarde só começa depois que almoça e o dia seguinte, só depois de dormir?
Preciso me concentrar muito para saudar os transeuntes com um “boa tarde” se ainda não almocei – mesmo que o relógio já marque umas 3 da tarde. E se me pego combinando um programa para o domingo no sábado de madrugada, meto logo um “então, amanhã a gente se encontra”.
... ficou ligeiramente apaixonada pelo Clint Eastwood depois de “As Pontes de Madison”?
Sou craque em cair de amores por gente inventada das telas, dos palcos e dos papéis jornais. Mas nunca imaginei ficar suspirando semanas (ok, até hoje) por alguém que podia ser meu avô. O filme é tão lindo que dói – assim como os suspiros. Desculpem, rapazes.
... sai do banheiro do shopping para o lado errado?
Localização e noção de tempo-espaço nunca foram meu forte. Tal defasagem se manifesta especialmente em lugares com muitos espelhos, que confundem ainda mais meu já sofrível senso de direção. É batata: saio dos banheiros de shopping e dou de cara com a parede.
... assovia para os passarinhos achando que pode se comunicar com eles?
Eu não entendo nada de pássaros. Sei identificar meia-dúzia de espécies e olhe lá. Mas é só um dos bichinhos alados pousar perto da janela que olho para os lados, a fim de me verificar sozinha, e começo a assoviar – desses assovios normais, mesmo. Às vezes eles olham. Juro!
... fica pressionando ininterruptamente o botão “Enviar e Receber” do programa de e-mail quando está com preguiça de trabalhar?
Depois de navegar em todos os sáites legais dos quais me lembro (ou de sofrer um branco de sáites legais), ponho-me a repetir o clique num único lugar, na esperança de que uma mensagem bacana me tire do marasmo, que nem um náufrago esperando uma mensagem na garrafa.
... já notou o estranho fato de que todo mundo que bate horrorosamente o carro, quando perguntado, diz que estava a “uns 60 por hora”?
O auto ficou irreconhecível. Sequer dá para dizer se era uma Variant ou um Astra. Graças a Deus não aconteceu nada com o fulano, que é seu amigo. No primeiro encontro depois do acidente, a pergunta inevitável é “e aí, que susto, hein? Como foi?”. E a resposta inevitável é “ah, eu tava a uns 60 por hora...”.
Eu e o João chegamos a duas conclusões possíveis. Uma: êta, povo mentiroso. Outra: é mais seguro andar sempre a 100 ou 120. Fico com a primeira. Será que sou só eu?