quinta-feira, 4 de novembro de 2004

Casos de transplante

Coloque-se nesta posição: você sabe que um livro seu será levado ao cinema por um grande diretor. Homem controverso mas genial, há grande esperança dele fazer a obra brilhar. Daí o cidadão, chato como ele só, passa a te ligar em plena madrugada para perguntar “qual sua definição de deus”. Stephen King teve que amargar a pentelhice de Stanley Kubrick ao ceder “O Iluminado” para as telonas. É verdade, nem sempre escritor e diretor pensam do mesmo jeito (ou dormem no mesmo horário). Vai ver por isso livros bons já deram em filmes chatos – e vice-versa.

Não costumo ir correndo comprovar se o livro é melhor ou pior que a versão da tela. Tem gente especialista nisso: mal o dito cujo sai nos cartazes, já correm à livraria para checar a versão original impressa. E não é pequena a legião de pessoas pichando o cinema por estragar obras literárias. Mas não acontece sempre assim.

Algumas vezes a sétima arte nos poupa o trabalho de ler um volume modorrento. Em outras, dá vontade de sair à caça do safado que pegou obra tão boa e desvirtuou. E há quem faça por mim um trabalho quase solidário – de levar à tela livros nos quais eu jamais colocaria as mãos, como os do gênero fantasia “O Senhor dos Anéis” e a saga “Harry Potter”.

É tudo questão de opinião, claro. Não se pode partir sempre do princípio “livros são melhores que filmes”, porque isso não é verdade. Stephen King, por exemplo, passou aquelas noites péssimas em vão: detestou a versão de Kubrick para seu livro e decidiu mandar filmar um novo, em formato de série, em 1997. Já eu e uma multidão achamos o psicopata de Jack Nicholson perfeito.

Como vai do gosto de cada um, podem dar seus pitacos sobre o assunto. Um dedal das minhas opiniões segue abaixo.

Adoráveis Mulheres
É como um conto de fadas, mas para adultos – porque há doença e morte ganhando lugar na história. Conta sobre a vida de Josephine, uma garota que não se conforma de ser apenas dona de casa interiorana e quer virar escritora. O livro é, digamos, fofinho. Em filme, com Winona Rider, ficou adorável, sublime, um bálsamo para os olhos.

A Sangue Frio
Já contei sobre o livro fantástico escrito por Truman Capote. História verdadeira, densa, cruel e venosamente sanguinária (apavorante, pra dizer o mínimo). Em 1967, um filme também contou a história da família Clutter e de seu assassinato por Perry e Dick. Ser preto e branco não foi o problema. Ter virado quase um documentário é que fez perder a graça (se é que tem graça aquilo).

O Xangô de Baker Street
Quando li a obra de Jô Soares, confesso ter “pescado” em vários trechos. Era uma boa idéia misturar o período imperial do Brasil com uma macabra aparição de serial-killer, mas... nossa, como ficou chato. Daí saiu no cinema e me obrigaram a ver. Gostei! Muito melhor na tela do que no papel. O gordo que me desculpe, mas às vezes as descrições não são suficientes.

Diários de Motocicleta
Como o livro não ficou famoso até que virou o filme de Walter Salles, poucos devem ter lido. Eu apanhei o tal em 2002, para fazer uma reportagem sobre o assunto – e dormi na segunda página. Concluí que a tradução era ruim ou que Che, como escritor, era um baita líder revolucionário. Então veio o filme e quase derreti por dentro, de tanto achar bom. Filmagem incrível, atores perfeitos, uma história emocionante. Ler que “formamos uma só raça mestiça, desde o México até o estreito de Magalhães” é inspirador. Mas ouvir, arrepia. Esse é mais um caso de transplante no qual as palavras valem, mas a telona mata a pau.

Diarios.jpg
Che e seu amigo, nas telas,
são mais... hum... vibrantes
Fla Wonka às 01:52 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold