sexta-feira, 29 de outubro de 2004

De um mundo escolar a outro

Quando se trata de estudo, é muito fácil tomar um teleférico ligando a Áustria com Bangladesh. Claro, é preciso pagar uma fortuna para embarcar no transporte. Mas eu posso dizer que passei das carteiras imaculadas para o caos total e vivi um pouco dos mundos “particular” e “estadual” do ensino.

Escola pública é criticada até por crianças de seis anos hoje em dia. Meus pais contam sobre o tempo em que estudar sem pagar, em colégio de prefeitura, era coisa fina. As vagas eram disputadas e, para conseguir um lugarzinho naquela sala de aula, contava muito ter um tio comerciante, um avô abonado ou amigos em órgão público. O aprendizado era gratuito, bem servido, fomentado por professores cultíssimos e castradores – e até a merenda era de lamber os beiços.

Já para a escola privada eram enviados os riquinhos problemáticos. Filho de comendador meio burro e levado? É para o colégio pago que ele ia. Não escapava da palmatória por ter as costas quentes – o que lhes deixava as “costas” mais quentes ainda. E assim a vida escolar seguia. Até que tudo se inverteu.

Corta a cena para o meu tempo, aqueles eletrizantes anos 80. Quando fui para a primeira série pela primeira vez, tinha seis anos ainda. Não queria ficar na pré-escola porque saturei de fazer desenho e já sabia ler e escrever de um tudo. Mamãe me levou para estudar na escola estadual onde ela dava aula, a fim de acabar com os chiliques matinais. Fui, permaneci o ano todo feliz e estudiosa, passei com média 9. Mas não tinha matrícula, porque era nova demais.

Então os enjoados da escola particular para onde me mandaram, muito afeitos a papéis de documento, me fizeram praticar toda a 1a série de novo. Passei tudo de novo, agora com 10. E estranhei demais todo aquele ambiente.

Na escola do Estado, o cenário era lazarento. Paredes sujinhas, pátio sem bancos, quadras sem tabela de basquete ou mesmo uma trave de futebol. Não tinha material de educação física, o lanche era mirrado, as tias ganhavam mal. Mesmo assim, eu amava cada centímetro. Meus amigos eram, com toda sua classe média baixa, divertidíssimos, sapecas, sarristas. Peguei piolho, sim... Quem não pegou?

Com a passagem no “teleférico social”, notei as diferenças para a escola privada logo de cara. Uniforme de helanca fazendo suar no calor era o de menos ali. Duro era aturar as meninas metidinhas, os garotos filhinhos de papai, a diretora cheia de normas estúpidas (por que escorregar pelo corrimão era crime tão grave, oras?). O panorama era perfeito, com chão encerado, ginásio coberto, capela e banheiros límpidos. Mas tão enfadonho...

Não tinha campanha de levar saquinho de leite para ajudar os doentes do Hospital do Fogo Selvagem. Não tinha festa do sorvete. Não tinha briga de soco entre moleques. Senti falta do clima descontraído e meio marginal da escola pública. E, até que enfim, voltei pra lá dois anos depois!

Voltei a usar apenas avental branco em vez de uniforme. Voltei a conhecer os funcionários todos pelo nome. Morri de achar bom passar a terceira, quarta, quinta séries no glorioso “E.E.P.G. Anésia Loureiro Gama”. Os corredores eram gelados no inverno e escaldantes no verão, mas quem estava reparando? Era bem melhor do que o estilo nazi-marcial do “Externato Rio Branco”.

Pois não foi que precisei voltar aos domínios fascistas na 6a série? Foi experiência de quase-morte. Mais três anos de garotas nojentas me zoando e meninos empertigados me esnobando. Fora a amizade da Raquel, o lanche de pão com molho vermelho e as aulas de matemática com um professor viciado em Beatles, odiei cada segundo. Sabia que o colégio público era fraco, mas tinha muita saudade da informalidade dele.

Às vezes a vida é assim mesmo: a Áustria tem um ar classudo demais e Bangladesh pode ser complicada – mas fazer muito, muito bem ao coração.

Fla Wonka às 04:10 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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