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Aprendendo com o pipoqueiro Era uma tarde quente de 1987. O sinal da escola já tocara, indicando o fim de mais um dia de aula. Barba, o pipoqueiro, aumentava o fogo da panela para receber os estudantes atraídos pelo barulho do estouro. Era um homem um tanto sisudo, mas de bom coração – tão bom que prometia um saco de pipoca gratuito ao aluno que lhe apresentasse uma prova com nota 10 naquele ano. Meu estoque de exames com tal valor já havia se esgotado. Caindo na conversa de meus coleguinhas, resolvi adulterar a data de uma avaliação do ano anterior e apresentar com a cara mais inocente do mundo. Ao Barba, velho lobo do mar, bastou ver a mancha de Liquid Paper para notar a fraude. Ele se aproximou de mim e me passou a maior de todas as broncas na frente do pátio cheio. A partir daquele dia, não haveria mais pipoca gratuita para ninguém – e a culpa era toda minha. Eu engoli o choro, esperei o vermelho do rosto ir embora e... mudei minhas atitudes. Desde então venho baseando todas as minhas ações no que é certo e direito. O engraçado (ou não) é que às vezes essas ações são mal vistas por muita gente. O “jeitinho” brasileiro ainda impera e nós, os não-jeitosos convictos, passamos por um bando de tolos. Observar isso é a coisa mais fácil: ao atravessar a rua, por exemplo. Eu espero o quanto for necessário para o bonequinho do semáforo de pedestres ficar verde para mim. Enquanto permaneço no meu silencioso aguardo, os espertinhos se atiram entre os carros em um zigue-zague corrido e audacioso. Quem é a bundona que fica parada por cinco minutos? Eu, sempre eu. Pelo menos tenho mais chance de chegar ao outro lado intacta. No supermercado também acontecem muitos testes de boa educação. Quando minha cesta de compras conta com mais de 12 volumes, eu me recuso a ficar no caixa rápido. Não penso duas vezes em pegar uma fila gigantesca e demorada. O quê, não basta isso para passar como alienígena na frente dos outros? Então tente devolver um troco errado para cima... Nem que seja por dez centavos. Até o atendente do caixa faz cara de espanto quando vê a cliente voltando e entregando-lhe a diferença. Pegar ônibus é a mesma coisa. Às vezes me sinto uma tonta de pagar o preço da passagem quando vejo turmas inteiras de rapazes de bonés e camisetas de grife pedindo ao cobrador para liberar a catraca. Eles devem fazer isso sempre porque o meu dinheiro suado paga a conta. Fazer o quê, né? Eu é que não vou sujar minha roupa me arrastando no chão por causa de R$ 1,70. Nem vou me fazer de desentendida e fingir uma soneca quando uma pessoa idosa procura por um assento para descansar as pernas. Mas os espertos não pensam assim. Dias depois do incidente da pipoca, precisei fazer uma prova de inglês no meio da aula normal, pois havia faltado no dia. A professora me colocou no canto e me passou uma folha um tanto usada – era possível, inclusive, olhar as respostas escritas e apagadas com borracha. Levantei a mão e contei para ela que o exame já tinha as soluções. A classe toda cochichou, incrédula com o meu descaso frente a tal oportunidade de ouro. Recebi outra folha limpa, fiz os exercícios e tirei a nota que era minha por direito. Queria que o Barba tivesse visto como aprendi a lição. Vivi Griswold às 09:56 AM |
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