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Da terra da garoa Sabe o Arnesto? E o moço que tinha de pegar o último trem para Jaçanã? E as mariposas que se esquentavam rodando em volta da lâmpada? E o Moacir, que ia casar com a Gabriela? E o policial que foi apartar uma confusão numa pizzaria no Bixiga e mandou todo mundo para as “Crínica”? Não?! Então, o que você está esperando para adentrar no maravilhoso mundo de João Rubinato – ou Adoniran Barbosa? Ao contrário do que muita gente pensa, o homem que melhor retratou a cidade de São Paulo nasceu em Valinhos, interior do Estado, aos 6 de julho de 1912. Alguns de seus documentos apontam 1910 como o ano em que veio ao mundo. Isso porque o moleque precisava ser mais velho para trabalhar e ajudar a família, de imigrantes venezianos. O pequeno João não era nada afeito aos bancos escolares. Não me admira nada: para alguém como ele, qual o uso em ficar dando a mão à palmatória? Preferiu trabalhar – e como trabalhou. Foi entregador de marmita, varredor, pintor, tecelão, mascate e garçom, entre outras profissões, nas cidades de Jundiaí e Santo André, onde também morou. A sorte mudou quando, em 1933, ele ganhou um contrato para cantar na rádio, depois de participar de programas de calouros. Em 1941, já consolidado no ofício de compositor de sambas, ele foi para a Rádio Record, onde criava personagens e participava de programas. Ainda fez cinema e, bem, compôs verdadeiras pérolas que viraram clássicos merecidos. Imagina quanta inspiração ele não tirou do dia-a-dia servindo mesas e pintando paredes para escrever seus sucessos depois? E, acima de tudo, imagina estar num restaurante e ouvir aquela inconfundível voz rouca perguntando o que você gostaria de beber? Pena que só nasci décadas depois do tempo que sêo Adoniran bateu cartão por aí... Restou-me “apenas” o legado das músicas dessa figura. Ninguém soube pintar a São Paulo da massa de operários e trabalhadores simples, que pegavam o trem e trabalhavam nas construções, como ele. E com tal maestria que, depois de tempos, as canções continuam cabendo. É difícil escrever sobre suas composições, que ganham vida somente com o jeitão de falar e o timbre característicos do sambista. Mas vou tentar. Não resisto à história narrada no “Samba do Arnesto”, em que o pessoal vai para um samba na casa do dito-cujo, que mora no Brás. Chegando lá, dão com a cara na porta e ficam injuriados. Adoniran diz que Arnesto podia, pelo menos, “ter deixado um recado na porta”. E segue, impávido, cantando: “um recado mais ou menos anssim: ‘Ói, turma, num deu prá espera, a vez que isso num tem importância, num faz mar, depois que nóis vai, depois que nóis vorta. Assinado em cruz porque não sei escrever, Arnesto’”. Como o pobre do Arnesto ia deixar um bilhete, afinal? Mas o morador furão do Brás não é o único da miríade de tipos criados e cantados por Adoniran. Ainda tem o namorador do Jaçanã, que tinha de deixar sua eleita para pegar o último trem, na famosa “Trem das Onze” – mais tarde transformada em propaganda do Big Trem da Estrela. E a confusão que fez voar bracholas para todo lado narrada na minha favorita, o “Samba do Bixiga”. Tem o povo que morava num casarão abandonado e foi despejado, de “Saudosa Maloca”, com o delicioso refrão “dindindonde nóis passemo dias feliz de nossas vida”. Tem “As Mariposa”, que gostam de dar beijinhos na “lâmpida” (ou, como canta Adoniran, “oscular-lhe a face”), assim como às mulheres apraz beijar o compositor. E o Moacir, então? O safado ia casar com a Gabriela na catedral da Vila Ré. Toca a ir toda a vizinhança para lá, de “beca preta” arranjada e “sapato branco apertado no pé”. Mas a cerimônia foi um vexame, depois que o padre fez a tradicional pergunta do fale agora ou cale-se para sempre e alguém levantou-se para dizer, nas palavras de Adoniran: “Seu padre, apare o casamento Isso sem contar a tragicômica história da “Iracema”, para a qual Adoniran se inspirou numa notícia de jornal. A protagonista morre atropelada ao atravessar a São João. A versão interpretada pela Clara Nunes é toda dramática, mas quando entra o velhinho de chapéu contando que guardou só as meias e sapatos da vítima, que seria sua futura noiva, fica difícil não rir. Ainda bem que o sambista não encontrou o triste fim da Iracema. Adoniran foi dessa para a melhor em novembro de 1982, com 70 bem vividos anos. Mas sua música continua aí. É só querer ouvir – e se deleitar com as histórias. Ele era o cara – e a cara da São Paulo dos “remediados”
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