quarta-feira, 6 de outubro de 2004

Concurso de dar em doido

Chega essa época do ano e as bancas de jornais são tomadas de assalto. O fenômeno impressionante faz a Mari Alexandre, seminua na capa de uma revista masculina, ficar relegada ao cantinho da vitrine. O espaço principal é destinado a um assunto bem menos torneado, mas capaz de chocar tanto quando as poses ginecológicas da modelo: vestibular. Ou, se quiserem, podem chamar de "bicho-papão".

Meninas e meninos com cerca de 17 anos ficam rodeados pela síndrome do vestibular quando chega o mês de outubro. A bem da verdade, pelo que andei pesquisando, muitos já começam a ter siricutico seis meses antes da prova chegar! Outros pensam nisso ao raiar de janeiro, graças aos pais e professores exigentes. Passar no teste e adquirir direito a cursar uma faculdade virou cruel obrigação, né?

Desde pequena eu quis ser arquiteta. Quer dizer, tive fases: dos 5 aos 7 anos, queria ser bombeira; dos 7 aos 10, resolvi que viraria aeromoça (ainda não se chamava "comissária de bordo" e ainda parecia ser boa opção para viajar de graça); dos 10 aos 16, mais crescida, estava decidida a ser arquiteta. Quando chegou a hora de escolher de fato, a cabeça revirou. Mas isso conto depois, porque não sou caso-padrão.

A maioria da molecada pós-adolescente não sabe bem o que quer ser na vida, mas sabe o que pretende prestar no vestibular. Sim, tem muita diferença! "Querer ser" envolve sonhos, delírios, vontades. "O que prestar" diz respeito ao tanto de grana que irá entrar na conta corrente todo mês, quanto prestígio tem a profissão, qual é a onda do momento. Ou vocês acham mesmo que todos aqueles candidatos a bacharelando de direito sempre imaginaram como seria divertido viver rodeado por pastinhas de processo?

Ninguém sonha com isso. A mente humana, principalmente a jovem, quer descobrir tesouros no fundo do mar, encontrar a cura pra uma doença grave, erguer edifícios glamourosos, desenhar roupas para vestir a Gisele Bundchen. Queremos ser bailarinas, âncoras de telejornal, pilotos de caça ou arriscar a sorte como magnata. Na hora de jogar a sorte no vestibular, no entanto, isso não vem ao caso. O negócio é avaliar friamente o futuro.

Por isso conheço apenas um geólogo, nenhum oceanógrafo, uma maestrina que virou analista de sistemas e 64 arqueólogos-que-não-o-são – e acabaram virando dentistas, publicitários, administradores. Ninguém consciente escolhe os "cursos esquisitos" ao completar a ficha do vestibular, certo? Mas por que não, poxa? Por que a molecada é impelida a decidir por segurança, dinheiro, poder e estabilidade em vez de sonho?

Não há diversão nenhuma em ser vestibulando. Todo mundo só quer saber das incrições, datas de prova, se está estudando até os olhos saltarem da órbita. É um fardo, é incerto, é angustiante. Porque não existe nesse concurso nenhum objetivo singelo e animador, eu acho. Vestibular virou sinônimo de sucesso de vida. Passou na USP? Vai ser rico e feliz. Não passou em nada?? Vai fazer cursinho?? Xi… tomara que o pai possa sustentar esse condenado burrinho por uns 20 anos… até que ele vire gari.

Fico nervosa por tabela por aqueles que vão fazer a tal prova. É um sem-número de guias e revistas e reportagens dizendo o que fazer no "grande dia". E já sei decor: é para não estudar no dia anterior, tentar relaxar ouvindo música suave, dormir bem na véspera, comer levemente no dia. Tem que vestir roupa confortável, levar uma barrinha de cereais para o local de teste, arrumar uma medalhinha de mandinga para dar sorte. Quanta bobagem!

É simples: não há regra. No dia em que fui fazer a famigerada Fuvest, acordei cedo. Estava com 38 graus de febre e uma gripe daquelas em que a cabeça parece expelir água por todos os buracos. No calorão, vesti blusa de lã para aplacar o mal-estar. Comi pouco e levei comigo uma santinha que a mamãe emprestou. Enchi de ficar naquela sala em meia hora, respondi tudo de qualquer jeito e tomei bomba já na primeira fase. Ainda bem que não tinha estudado muito durante o ano e não deixei de ir a nenhuma festa…

Querem saber? Nem liguei. Estava prestando outras três faculdades: direito, engenharia e jornalismo. Tudo a ver, não? Passei nas duas últimas e, depois de flertar com a primeira por duas semanas, escolhi a outra. Não optei pela minha profissão. Foi ela que optou por mim. Mas se tivesse pensado um pouquinho mais e contasse 27 anos em vez de 17, bem podia ter sido historiadora, professora ou fotógrafa.

Os manuais do estudante que pipocam na revistaria nesta época não dizem isso, mas a loteria de escolher uma profissão não termina após uma longa prova. Leva uns cinco anos até alguém conseguir saber o que vai ser da vida e ficar confortável com isso – e é uma pena a molecada ficar tão estressada por meses a fio, em vez de curtir o último ano colegial como se deve. Vestibular é cascata, sim. Mas vende horrores na banca de jornais. Mari Alexandre que se cuide.

Mari.jpg
Preferia ver os moleques falando de loiras boazudas
do que sobre a prova da GV...
Fla Wonka às 02:40 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold