quinta-feira, 30 de setembro de 2004

Garotas com gogó

Se estão pensando que este é um texto sobre travestis, podem tirar o eqüino da precipitação pluviométrica. O título acima vem apenas descrever o que eu queria ser. Gosto modestamente de tudo na minha pessoa, mas podia trocar uma coisinha aqui e outra ali. A voz, por exemplo. Tem coisa mais encantadora do que ser uma mulher de voz especial?

Minhas cantoras preferidas servem para fazer a redenção daquilo que eu sei não conseguir. Apanhar um microfone e dar conta do recado é para poucas. Fazer isso e ser aplaudida, é melhor ainda. Agora, ser uma mulher de voz poderosa e arrebatar a platéia não só pela técnica mas também pelo estilo inconfundível, é para eleitas. Eu trouxe as minhas ao conhecimento de vocês logo ali, abaixo.

Fico bastante emburrada quando falam sobre a Sandy e dizem "ah, mas ela é afinada". Só para saber: isso não deveria ser obrigação, em vez de alento? Ela é cantora, céus, claro que precisa ser afinada! Já nos quesitos espírito e desempenho, acho que deixa a desejar. Para o meu gosto, cantoras devem ser como divas no palco, interpretando canções com o coração na garganta. Estas são.

Carmen Miranda
Lá em casa tínhamos LPs do "arco da velha". Não, a "velha" não era minha mãe… Mas eram dela as bolachas de Pixinguinha, Assis Valente, Noel Rosa e dessa mulher espalhafatosa que cantava do modo mais divertido no mundo. Posso cantar"South American Way" decor porque adorava imitar a Carmen. E pensar que, um dia, ela já foi hostilizada por idiotas que a julgavam "americanizada". Pff! Foi uma deusa da voz, isso sim!

Janis Joplin
Não tem como ouvir "Down on Me" e "Me and Bobby McGee" sem cantar junto fechando os olhos e forçando a garganta. Janis era uma garota dona de voz rouca que teve carreira tão rápida quanto apaixonada. Pena a heroína levar embora tanta gente capaz de emocionar com uma simples cantarolada, não? Se há alguém para sentir falta nessa área dos "mortos on drugs", é da Pearl que sinto.

Monserrat Caballé
Não conheço 90% do trabalho desta rotunda senhora. Mas quando ela adentrou a arena de Barcelona cantando "Amigos para Siempre" com os tenores Plácido Domingo e José Carreras, arrepiou até os ossos. Primeiro, porque a música é uma das coisas mais fantásticas para se falar de amizade. Segundo, porque Monserrat, única mulher no ato, rouba a cena com uma voz poderosa feito trovão! Mas um trovão gentil.

Cyndi Lauper
Para três dentre três Garotas que Dizem Ni, Cindy merecia ser beatificada pelo Papa, ganhar um feriado e uma estátua em praça pública. Quando ela interpreta "Girls Just Wanna Have Fun", é o nosso hino tocando! E não se trata apenas de uma letra engraçadinha, mas de um recado passado a plenos pulmões para meninas que querem só isso mesmo na vida: boa diversão. E, como ela, pintar os cabelos de todas as cores do arco-íris, se for o caso.

Tina Turner
Ah, se eu ponho minhas mãos sobre Ike Turner… Como um camarada pode ter a audácia mórbida de bater numa mulher (que não seja a Condoleezza Rice)? E como ele pôde fazer isso com alguém que, além de tudo, tinha a força vital da Tina? Muito mais do que coxas grossas, Anna Mae Bullock – o nome da moça – canta de maneira tão atávica que choca meus ouvidos, ainda mais em "We Don’t Need Another Hero". Ou "Xiru-liro-liro-liro", como diz a Vivi.

Nara Leão
Diria o meu irmão muito romanticamente: Vinicius de Moraes não morreu de embolia pulmonar; morreu foi de tédio por cantar tanta música mole. Eu não acho. Curto ouvir alguma coisa de bossa-nova em certos momentos da vida. Se for a Nara Leão entoando, então, adoro. Acho que nenhuma brasileira tem voz mais doce. Parece uma mãe embalando bebês. Dá sono, mas é lindo.

Natalie Merchand
É uma das preferidas de Clara McFly e, quando canta "One Fine Day", a minha também. Natalie é um exemplo de garota que não precisa vestir apenas sutiã no palco, berrar ou rolar no solo para prender atenção. Com uma vozinha calma e poucos gritos, ela chega ao coração nas lentas e empolga nas agitadas – como faz com sua banda de nome perfeito, o 10.000 Maniacs.

Aretha Franklin
Tem uma cena que eu adoro em "Escola de Rock", quando Jack Black convence a menina gordinha de que ela não precisa ter vergonha disso. Ele diz: "Sabe Aretha Franklin? Ela é uma ‘big lady’… Mas, quando canta, todos quem estar com Aretha!". Bom, eu queria muito. Dava um braço pra ter aquela voz gutural e cantar "Respect" com tanta classe. Braço eu tenho dois, poxa!

Debbie Harry
Eis a cantora que eu queria ser. Deborah Harry, loira, linda, desbocada, insana e dona de uma voz ora sublime, ora desesperada – basta ouvir "Picture This", por exemplo. A mulher foi (é) vocalista do Blondie, umas das minhas bandas prediletas. Pela mania de cantar até se rasgar toda no palco (às vezes, literalmente), foi chamada de vadia nem sei quantas vezes. Diziam que o grupo só fazia sucesso por ela ser gostosa. Pode ser. Mas, não sei… Ainda acho que a energia e competência vocal de Debbie tinha alguma coisa a ver com isso… Não? Ah, sim.

debbie_harry.jpg
Isso é ser linda e talentosa
Fla Wonka às 02:37 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold