|
||||||||||
|
||||||||||
Na cozinha com Banana Delicada como uma gueixa, intensa como um pesadelo. Talvez essa seja a definição que eu daria à escrita de uma das minhas autoras favoritas, Banana Yoshimoto. A garota, que escolheu seu pseudônimo porque acha bonitas as flores da bananeira, lançou seu primeiro livro, "Kitchen", com 20 e poucos anos e causou uma revolução na literatura de seu país natal, o Japão. Conseguiu ingressar no hall dos autores respeitados, mas ao mesmo tempo vendeu milhões de cópias em bancas de jornal. Suas histórias de personagens que vivem entre o peso da tradição e a busca pela identidade conseguiram captar os anseios e as inquietações da geração X japonesa. Foi eleita, mesmo sem querer, a porta-voz de uma juventude dividida entre a ocidentalização e a cultura milenar. Entre o ímpeto consumista de modernos aparelhos eletrônicos e a admiração pelo florescimento das cerejeiras. "Kitchen", lançado no Brasil com esse mesmo título, possui duas histórias. A principal narra um pouco da vida de Mikage, uma garota que se vê totalmente sozinha após a morte da avó, sua única parenta viva. No conto "Moonlight Shadow" (também com o título original preservado, veja só que inédito), conhecemos Satsuki, uma menina melancólica que tenta reconstruir a vida após o trágico acidente de carro que vitimou seu namorado. As narrações versam sobre um único tema: como a perda de uma pessoa querida obriga a amadurecer, mesmo quando não se quer. Mas, apesar da carga de infelicidade que as cercam, as duas garotas são independentes, modernas, otimistas. Elas trabalham, fazem jogging e gostam de música americana. Comem com o mesmo gosto um prato de sashimi e um sanduíche do Kentucky Fried Chiken. É reservado para elas um humor fino e uma visão crítica apurada, não permitindo uma escorregada para o melodrama barato. A autora escreve de forma tão sincera que nada parece pesado ou fora de contexto – nem a morte, nem a transexualidade de um personagem. As histórias, narradas sempre em primeira pessoa, vão se desenvolvendo aos poucos, misturando lembranças, impressões, acontecimentos. A narrativa é construída como um origami: com paciência, dedicação e capricho. Yoshimoto desenvolveu seu livro da maneira mais despretensiosa possível, durante as folgas de seu emprego de garçonete em um restaurante de Tóquio. Assim, o volume tem cara de tudo, menos de um sucesso mundial. Contrariando a premissa, mais de 2 milhões de exemplares foram vendidos no Japão. O fenômeno ganhou até nome: "Bananamania". "Kitchen" conseguiu ultrapassar os pequenos limites do arquipélago, atravessou o planeta (literalmente) e estourou na Europa e nos Estados Unidos. Virou até filme. A moça, porém, parece não ligar para tanto frisson. Em seus prefácios, faz confissões do tipo "quando reli este livro fiquei vermelha de vergonha, nunca mais vou escrever coisa igual", ou se despede de seus leitores avisando que já estava atrasada para um show dos Ramones. Ainda por cima, ela tem bom gosto musical.
|
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||