quarta-feira, 29 de setembro de 2004

Não vai dar, não

Assim como Raul, eu juro que prefiro ser essa metamorfose ambulante. Ter aquela velha opinião formada sobre tudo, então, nem pensar! Mas existem coisas na vida que a gente sabe não poder fazer. No meu caso, se me permitem, preciso confessar: não consigo gostar do filme "Ghost", não tolero usar chinelo e sou completamente incapaz de dormir de barriga pra baixo. E tem outras coisas que não acontecerão comigo nunquinha.

Até queria provar destas experiências um dia, mas tenho quase certeza de não ser capaz. Por exemplo: duvido que pudesse virar uma garota hippie. Acho lindos aqueles casacos de lhama andina, rendo respeito imenso pela filosofia de desapego e me amarro na idéia de existir gente que despreza o tal do materialismo.

Mas se entrar no âmbito mais específico, sinto dizer: ia me rebelar contra os rebeldes em pouco tempo. Droga, eu faço questão de visitar a depiladora regularmente, não deixaria meus filhos com nariz escorrendo e cabelinho desgrenhado e adoro comer carne vermelha.

Meu nariz coça ao menor contato com incensos também. E se for para ser hippie meia-boca, dessas que parecem ter acabado de sair de uma botique, prefiro ficar na minha. Muito ajuda quem não atrapalha a causa, certo?

Ainda tem outras turmas dos quais realmente não me vejo fazendo parte. Fã confessa do vestuário negro-total, eu já tive que responder muitas vezes se sou gótica. Não sou, e nem poderia. Apesar da afeição pelo tom de piche fresco, esse papo de circular por cemitério não atrai. Sexta-feira à noite, calorão pedindo uma bela mesa de boteco… e eu lá, em contato com o reino dos mortos? Poxa, não rola. Melhor pegar um cinema.

Ser "geração saúde" também não faz parte das preferências desta moça aqui. À mínima menção da palavra "malhar", já dá uns calafrios na espinha e eu corro deitar no sofá, botar os pés pra cima e apanhar um gibi e uma limonada com gelo. O contrasenso: tenho uma esteira elétrica em casa, usada por poucos meses enquanto ainda contava 10 quilos a mais que hoje. "Elas sempre viram cabide", me avisaram. No meu caso não foi muito diferente, apesar da tentativa de virar maratonista indoor.

Até sinto (pouca) inveja de quem pula da cama cedo, faz a mala e parte para o mundo encantado dos halteres e colchonetes. Chegam lá, suam feito doidos e sentem a doce endorfina circular pelo organismo – para depois mandar um Gatorade goela abaixo e ganhar novo vigor com o banho no vestiário.

Já frequentei academia. Dormi duas vezes na aula de relaxamento e arranquei a tampa do dedão num azulejo do chuveiro coletivo. Hoje, guardo distância de segurança de qualquer lugar com as palavras "shape", "body" ou "fitness" estampadas no letreiro.

Fazer parte de grupos é ótimo, eu acho. Adoro ver a molecada do skate andando junta – e competindo não pela melhor manobra, mas pra ver quem usa a maldita bermuda mais abaixo da bunda. Acho uma graça senhoras que se encontram para fazer curso de culinária, pintura ou cerâmica, como a minha mãe tanto gosta. Pena que certos grupos parecem um oásis tão distante.

Se existir uma próxima vida, porém, eu quero vir com todos esse aplicativos baixados! Quero ser uma gótica capaz de pedalar na ergométrica por horas e preparar jantares com meio quilo de broto de bambu! Mas nesta encarnação, não vai dar, não.

hippies.jpg
Olha a minha turma na próxima vida!
Fla Wonka às 04:03 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold