quarta-feira, 29 de setembro de 2004

O amor segundo o brega

"Quem dera ser um peixe/ Para em teu límpido aquário mergulhar/ Fazer borbulhas de amor para te encantar/ Passar a noite em claro dentro de ti". Ah, que coisa linda, profunda, sutil, não? Pois assim são os versos de amor cantados pelos maiores nomes da música brega: exagerados, cheios de insinuações calientes e comparações com a natureza.

O cantor dessa pérola é nenhum outro além de Raimundo Fagner. Mas o moço não está sozinho na tentativa de exprimir todo o clima de paixão de um modo, digamos, extremo – ele é apenas mais um no Olimpo dos compositores gosmânticos, termo usado para descrever um romântico além da conta, melado. Letras do gênero pululam na nossa MPB. Verdade seja dita: impossível haver uma música brasileira mais popular do que isso.

Ironicamente, ser brega hoje é ser cult, e artistas como Wando (que já até ganhou uma homenagem por aqui) agora desfrutam de um certo reconhecimento. Eu dou maior apoio a eles, viu? Porque tem que ser muito bom para conseguir enfiar as palavras "chão", "suor", "relva" e "sede" em todas as composições. O resultado? Coisas inimagináveis como as que seguem...

"Parece que ela enfiou uma espada de aço no meu coração
Fez escorrer o meu sangue, manchou minha alma
E me atirou no chão
Com o meu corpo ferido jogado, esquecido, parecendo animal
O tombo foi igual ao de um saco, me deixou louco
E eu não voltei ao normal"

Amado Batista, "Um Pedaço de Mim"

Que mulher teve coragem de machucar tanto um homem de nome Amado?

"E a mágica do amor nasceu quando eu olhei você
Meu mundo mudou, o tempo parou, você tomou conta do meu coração
E foi tanto amor que meu sonho acordou de volta pra vida
E o tempo passou, você me deixou, parece que a vida não quer mais viver
Porque a noite mais linda do mundo vivi com você"
José Augusto, "A Noite Mais Linda"

Se isso tivesse sido escrito no século XIX, seria Álvares de Azevedo!

"Amor é uma palavra
Que enfeita, que laça, abraça, esconde outros desejos
Desejos são delírios
Lírios que dançam, iludem, balançam
Corações, corações são pequeninos grãos de areia tão fininhos
Que qualquer vento menino leva pra outro lugar"
Fábio Junior, "Desejos e Delírios"

Eu adoro a parte do "vento menino". Seja lá o isso que signifique.

"Vou me embrenhar nessa mata só porque
Existe uma cascata que tem água cristalina
Aí então vou te amar com sede
Na relva, na rede, onde você quiser
Quero te pegar no colo
Te deitar no solo e te fazer mulher"

Agepê, "Deixa Eu Te Amar"

Fala aí, esse final truculento arrepia. Não? Ok.

"Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa o que os outros vão pensar
Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu posso me arrepender
Eu quero que você não pense nada triste
Pois quando o amor existe
Não existe tempo pra sofrer"
Odair José, "Vou Tirar Você Desse Lugar"

Não tem pra ninguém: uma prostituta fez Odair escrever os melhores versos gosmânticos.

odair.jpg
E ainda é galã, o peste!
Vivi Griswold às 10:21 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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