segunda-feira, 27 de setembro de 2004

Solta o pause

Num tempo em que o Rock in Rio ainda era na Cidade Maravilhosa – e existia uma cerveja chamada Malt 90 para patrociná-lo – o ato de coletar suas canções favoritas e perpetuá-las numa mídia reproduzível podia ser uma grande aventura. E bota aventura nisso.

Primeiro, porque a tal mídia era uma fita cassete. Desconfio que, em pouco tempo, meus primos mais novos nem vão saber o que diabos é a tal fita. Mas posso atestar que a primeira gravação a gente nunca esquece.

Até porque seria difícil esquecer do razoável tempo perdido, ouvindo as paradas de sucesso de rádios como a Transamérica, com o rec engatado e o dedo no botão do pause, torcendo pela sorte de sua canção do desejo estar na lista das mais-mais do dia. E só esta fortuna não bastava: caso a música fosse anunciada, ainda era de vital importância que o maldito locutor calasse a boca desde os primeiros acordes.

Eram poucos segundos encharcados de tensão: você tinha de fazer o cálculo para saber se valia a pena soltar o rec enquanto o insistente locutor tagarelava até o primeiro verso, ou se o melhor mesmo seria esperar a próxima execução de "I Got the Power", "Silent Morning" ou "Faroeste Caboclo". Não que elas fossem muito esparsas: tocavam o tempo todo, o que me leva a pensar, retroativamente, por que diabos eu perdia tanto tempo querendo gravá-las...

Uma vez que a gravação começava, vinha a segunda parte do martírio – o final da música. A agonia era maior especialmente no caso de "Faroeste Caboclo", que leva uma vida para terminar. A espera angustiada se justificava pela simples razão de que as famigeradas estações mal deixavam a canção acabar para soltar um jingle ou informar as horas. Quantas fitas de minha propriedade não foram salpicadas de sonoros "Transamérica, quinze para as duas!" ao fim de cada faixa!

Pronto. Diante do registro das horas, as opções eram três: voltar a fita, acertá-la no ponto novamente e esperar pelo próximo anúncio de "Silent Morning", começando tudo de novo; tentar editar o finalzinho da canção de maneira a apagar o máximo possível do jingle intruso ou, ora bolas, deixar assim mesmo e mandar tudo às favas. A fita é minha, eu faço como quiser!

Gravar suas próprias fitas era um acontecimento, um passo dado no sentido de se afirmar como gente, com gostos próprios (embora ainda discutíveis) e tal. Significava que, no carro, você não queria mais ir ouvindo a trilha de Blade Runner com a sua mãe – ou toda a coleção de sons da sua genitora. A dificuldade que o processo envolvia só fazia aumentar o gostinho bom da coisa.

Hoje, temos os CDs graváveis e regraváveis, o milagre do mp3 e os abençoados compartilhadores de canções. A variedade e a facilidade de conseguir músicas está maior que nunca – para quem, é claro, pode pagar pelo equipamento todo. Por outro lado, agora o Rock in Rio é em Lisboa, a Malt 90 virou memória e meus primos e irmãos mais novos jamais saberão o quão divertido podia ser ficar horas com o dedo no pause.

fita.gif
Elas existiram mesmo
Clara McFly às 06:41 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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