sexta-feira, 24 de setembro de 2004

O fim do mundo é aqui

Boletim Ushuaia #2

Na próxima vez que alguém disser que tal lugar parece o fim do mundo, a expressão terá um significado completamente diferente para mim. Porque não há outro canto no nosso continente mais extremo do que Ushuaia, onde estou agora.

Seguindo mais ao sul desta pequena cidade nevada às margens do canal de Beagle e rodeada por majestosas montanhas só existem algumas bases na Antártida. O fim do mundo é aqui. E os locais têm o maior orgulho disso.

Todas as camisetas, canecas, bonés e outros souvenires possuem esse fato estampado em letras garrafais. Para o meu espanto, Ushuaia é muito turístico. Na verdade, quando saímos de São Paulo para chegar até aqui a bordo de um carro, não tinha muita idéia do que iria encontrar. E digo com alegria: valeu cada minuto.

Para começar, está nevando - o que já é uma atração para qualquer brasileiro não familiarizado com os flocos brancos caindo suavemente e o tempo todo. Já havia visto a neve algumas vezes, mas isso não me impede de ficar como uma criança: de boca aberta para chupar gelinho, com as mãos estendidas para ver os flocos, correndo como tonta para fazer o maior número de pegadas no campo. Hoje eu esculpi até um boneco de neve, o primeiro da minha vida (ele tinha apenas 30 centímetros de altura, mas quem estava contando?).

Desde a semana passada, nossa expedição tomou um novo rumo. E um rumo deveras emocionante, devo dizer. Antes de chegar até aqui, por exemplo, eu realizei um dos meus maiores sonhos: ver uma baleia de perto. Acabei vendo dezenas delas - machos, fêmeas e bebês. Algumas pularam, outras mostraram a cauda e deram uma borrifada. E eu feliz da vida.

Veja bem: sou uma pessoa de estômago muito chato. Tenho inveja grossa daquelas pessoas com entranhas de caminhoneiro, que conseguem comer uma feijoada completa e depois ir na montanha-russa numa boa. Eu não sou assim. Eu enjoôo em estacionamento de shopping. Portanto, a idéia de entrar em um bote a caminho do alto-mar, sendo levado pelas ondas que o vento forte estava fazendo, me assustava.

Mas tínhamos ido até Puerto Piramides só para ver as tais baleias. E o sonho, como fica? Deixei meu estômago para lá e fui. Quando o primeiro bichão colocou a cabeça para fora e nos olhou, agradeci por não ter dado uma de fresca. Tudo bem que o passeio demorou e que, depois de alguns minutos, eu estava quase pulando na água e voltando sozinha para a terra firme. Tudo bem também que eu fiquei péssima nos dias seguintes e não consegui comer muita coisa até hoje.

Pois agora, além de dizer por aí que estive no fim do mundo, posso gritar: EU VI UMA BALEIA! Quantos de nós somos tão sortudos?

austral-whale.jpg
Meninos, eu vi!
Vivi Griswold às 10:44 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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