Como eu disse, adoro cozinhar. Também como já atestei por aí, leio toda sorte de coisas que me caem às mãos – de rótulo de xampu a bula de remédio, passando por placas de rua, manuais de instrução e, eventualmente, alguns livros. Munida dessas duas características, acabei topando com uma descoberta impressionante: não tem côco na maria-mole! Pelo menos não naquelas de caixinha, embora a embalagem estampe um selo nada discreto que diz “Sabor Côco”.
Depois dessa, passei a incluir no meu menu de leituras as embalagens de comestíveis. O fato me atormentou. É como se o tang laranja não tivesse... laranja. Peraí. É capaz mesmo que não tenha. Afinal, o sabor daquele refresco é uma delícia, mas não me lembra nem de longe a fruta cítrica da qual diz ser feito. É como a esfiha de queijo do Habib’s – muito boa, mas vamos admitir: aquilo não pode ser queijo. É verde, por Deus!
Para minha surpresa, notei que, se por um lado o pó para preparo de maria-mole não se dignou a ter uma raspinha sequer de côco, outros produtos contam com ingredientes inimagináveis – coisas que vão do poético ao enigmático, passando pelo que eu classifico, mui humildemente, de enrolação. Haja nutricionista para explicar...
Aroma idêntico ao natural de morango
Categoria: de medo
Está presente num certo queijinho petit suisse que virou sinônimo do produto. Pensem comigo: se é idêntico ao natural, ora bolas, só pode ser O natural! Mas desconfio que não seja. Senão, a tampinha metálica por certo estamparia “Aroma natural de morango”. Esse “idêntico ao” me incomoda. Deve ser um negócio tão artificial que chegou ao ponto de ficar igual ao natural. Cruzes.
Aroma de fumaça
Categoria: cômico
Garantiu-me um amigo, padrinho e mago-da-internet que o tal ingrediente, componente do “molho churrasco” que acompanha pedacinhos de frango fast-food, foi um erro de tradução. O produto seria, na verdade, smoked - ou seja, defumado. Ainda assim, choro de rir toda vez que topo com o enunciado, todo sério, de que o molho contém “aroma de fumaça”. É, a cidade de São Paulo também!
Açúcar invertido
Categoria: mistééério
Este figura em bolachas (ou biscoitos, para os leitores de outros estados) em geral. Ainda não descobri o que diabos seria. Todo mundo a quem pergunto me diz, candidamente, que o açúcar invertido só pode ser... sal. Acho que não. Senão a lista de ingredientes traria simplesmente “sal” em vez dessa firula toda. Uma pesquisa rápida esclareceu o enigma: açúcar invertido é... ah, clique aqui e entenda por si só.
DNA vegetal
Categoria: me-enganaram
O xampu que diz conter isso é bom – e falo por experiência própria. Não há nada que desabone o produto, mas que história é essa de DNA vegetal? Tanto uma babosa – que minha avó plantava no fundo do quintal e passava no meu cabelo muito antes dela ficar chique e passar a se chamar aloe vera – quanto uma alface tem DNA vegetal. Então, se adicionarem à fórmula um tequinho de alface – ou chicória, ou vagem, ou alcachofra – pode-se dizer que o danado do xampu tem o tal DNA. Quero exame no Ratinho.
Corante amarelo crepúsculo
Categoria: poético
Sabe aquelas coisas que surgem não sei de onde, aparecem não sei como e ficam na sua casa não sei porquê – e não estou falando do amor definido por Camões? Pois apareceu uma gelatina de abacaxi aqui em casa. Eu jamais compraria uma gelatina com o auto-explicativo sabor de abacaxi. Mas a caixinha ganhou pontos quando li que o pó contém o corante de nome bonito descrito aí em cima. Acho que até engulo o abacaxi, só para comer uma coisa de cor tão lírica.

Se você olhar bem de perto,
quem sabe dá para ver o crepúsculo