quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Abre! Abre! Abre!

“Querido Silvio Santos. Espero que o senhor escolha a minha cartinha no meio das outras. Gostaria de pedir uma casa pré-fabricada para o sítio do meu avô. Ele não tem dinheiro para comprar uma. Muito obrigada”. Eu devia ter uns 12 anos quando escrevi essa mensagem em um papel de carta, enfiei-a em um envelope e coloquei-a no correio. O destino? O SBT. Sim, eu tentei a sorte para participar do programa “Porta da Esperança” – e me orgulho disso!

Está bem, o orgulho não é tanto assim. Mas que diabos, o Garotas me faz confessar cada coisa! De qualquer maneira, eu era uma menina bem-intencionada. Enchi a carta dizendo que meu avô era deficiente, pobre, diabético e muito, muito idoso – tudo mentirinha para amolecer o coração de Sílvio Santos. Como se fosse o Patrão em si que lesse todo aquele bando de correspondência! Apesar de treinar todas as caras de criança carente, não fui escolhida. Droga (ou ainda bem?).

No fundo, o objetivo maior era pisar no palco daquele programa que eu simplesmente adorava! Hoje ajudar os mais necessitados virou coqueluche na tevê: a Xuxa o faz, assim como o Gugu, o Sérgio Mallandro, o João Kleber, o Netinho, a Márcia... Naquela época, porém, “Porta da Esperança” era o único de sua espécie. O primeiro exemplar foi ao ar em 30 de dezembro de 1984 e chegou a ser exibido até 1997, porém não de forma ininterrupta.

O dominical começava lá pelas 17 horas, logo depois de Jesus falar. Ele (com “E” maiúsculo) aparecia em uma vinheta antecipando a emoção de “Porta da Esperança” e dizendo assim: “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu morria de medo.

Em seguida, sêo Silvio, no auge do sorriso, aparecia no palco principal. Ao fundo, uma porta gigante, parecida com a do Castelo de Greyskull, cheia de luzes em volta como espelhos de camarim. Num palquinho à esquerda da tela, um microfone esperava receber os desejos dos participantes da semana. O apresentador chamava a primeira vítima e lhe perguntava “o que você quer ganhar?”.

Daí a mulher respondia: “Ah, Silvio, eu queria uma cadeira de rodas para a minha mãe, que sofre do sistema nervoso, das úlcera, tem as perna cheia de variz e as vista cansada”. E então contava toda a história triste da mamãezinha (que aparecia no auditório chorando de tempos em tempos). Silvio se compadecia e falava, “quem sabe a nossa produção não encontrou alguém para doar a cadeira?”. E, em seguida, o momento máximo: “VAMOS ABRIR A PORTA DA ESPERANÇA!”.

Se ninguém aparecesse, o desejo não era realizado, e Silvio Santos falava que “a produção continuaria tentando”. Ô, enganação! Mas, se tivesse um tiozinho parado lá no meio, era porque o sonho havia sido atendido. No caso, a mulher descia até lá e, em prantos, se atracava com o encabulado representante da empresa, enquanto o Roque ia buscar a mãe da participante na platéia. Ao explicar todas as maravilhas da cadeira de rodas, era exibido um filminho sobre a firma benevolente.

Terminada a meia hora de pura emoção, outro clássico chegava: a “A Semana do Presidente”, onde Lombardi narrava tudo o que nosso comandante andava fazendo – quando eu era fã de “Porta da Esperança”, o hómi da vez era José Sarney.

Bons tempos aqueles, viu? Ah, não estou me referindo ao Sarney, é claro.

Vivi Griswold às 10:49 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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