quarta-feira, 22 de setembro de 2004

Uma garota e tantos bichos

Vivi, minha querida companheira que está um pouco longe nesse momento, ama bichinhos. De toda sorte. Ao cúmulo de, quando pequena, ter aparecido em casa com um ratinho de rua para criar. Claro que a relação com o roedor durou bem pouco – só até a mãe dela acabar com a brincadeira da ingênua criança. Já eu tenho de confessar: não sou provida desse espírito de São Francisco.

Não que eu amarre latas no rabo dos cachorros (aliás, isso só acontece em gibis. Eu nunca vi um cão com latas amarradas no rabo na vida real), chute gatinhos ou queira mais é que as baleias encalhem mesmo. Gosto de animais, como bem definiu o orkut, nos zoológicos – ou na casa dos outros. Tenho respeito por eles. Abomino crueldade contra animais e sinto o coração apertado quando vejo um cãozinho magro e abandonado, na rua. Só não tenho tino para cuidar deles, acho.

No universo dos animais selvagens, por exemplo, não me peça para passar a mão num elefante ou numa foca. Não sou muito chegada a esses contatos com peles paquidérmicas ou aparentemente escorregadias. Já no campo das criaturinhas de Deus domésticas, não dou muito certo com bichos sob o mesmo teto – embora já tenha tentado muitas vezes. Eu sempre caio na ilusão de que seria legal ter um bichinho. E me dou mal com a mesma freqüência, entre papagaios irados, cães tomados por ovelhas e gatos envolvidos num imbróglio de identidade sexual.

Pita, o papagaio
Chegada: Por volta de 1985.
Partida: Ele foi encontrar seu criador e se juntou ao coro invisível em 1992.
Onde foi parar: Sete palmos abaixo da terra no jardim dos fundos de minha antiga casa.
Entrementes... Pita era uma ave completamente revoltada. Ele foi muito doente quando era pequeno, talvez por isso tenha ficado traumatizado. Atacava qualquer criatura que enfiasse a mão na gaiola, para trocar as sementes de girassol, e se negava a repetir qualquer palavra.
Legado: Dois dias de choro quando ele morreu e uma das penas guardada até hoje, numa caixinha.

Minsk, o gato
Chegada: Por volta de 1988 ou 1989.
Partida: Poucas semanas depois, para a casa de uma vizinha.
Entrementes... Acolhemos o felino em casa com as bênçãos de minha mãe. Quando ela ficou sabendo que eu dava generosas tiras de bacon para o gato, mudou de idéia. Quando eu vi o bichinho comendo uma lagartixa, fiquei enjoada e concordei com a mamãe.
Legado: Algum tipo de alergia, que se alastrou pela família quase inteira.

Remon, o sheepdog
Chegada: 1988.
Partida: 1989, para a casa de uma conhecida que já tinha outros cães.
Entrementes... Levamos o Remon para casa, já batizado com esse nome afrescalhado, dentro de uma cestinha minúscula. Em poucos meses, não era mais a gente que saía com o cão para passear. Era ele quem saía com a gente. As crianças perguntavam na rua: “é uma ovelha?”.
Legado: Na fita do nascimento da minha prima, que aconteceu na minha casa de então, apareço com a cara arranhada (e coberta com hipoglós). Foi o Remon, que não tinha a menor noção da própria força.

Sophia, a gata – ou não
Chegada: 1997.
Partida: 1997, para o mundo dos gatos pobres, porém livres.
Entrementes... Pegamos a criaturinha ainda bebê, na casa de um amigo. Juramos que era uma gata e batizamos de Sophia. Na primeira ida ao veterinário, a surpresa: era um macho! Não demorou muito para que uma gatinha preta aparecesse toda noite no quintal, para fazer companhia a... er, Sophia. E ele/ela/it, traumatizado com a graça errada, caiu no mundo com sua nova amiga.
Legado: Uma história boa para contar, de um gato fugitivo confuso sobre sua identidade sexual. Um tanto de saudades também – e isso vale para os legados de todos os meus bichos.

Clara McFly às 06:14 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold