terça-feira, 21 de setembro de 2004

Parece que foi ontem

Se o calendário marcasse ainda o ano de 2003, ontem eu estaria me mudando oficialmente para a primeira casa montada por mim – claro, ao lado do rapaz que, também oficialmente, estaria passando para o time dos “casados” no futebol semanal.

Há um ano e um dia mudei de endereço e de estado civil. Quando cruzamos a porta naquela noite, eu tinha alguma idéia do que era viver sob o mesmo teto. Mas não imaginei que fosse ainda melhor do que pensava. Basicamente, por duas razões: a casa e o caso.

Ser dona da sua própria casa é bom demais da conta. Especialmente para alguém como eu, dada a essas coisinhas corriqueiras do tipo cozinhar – como eu disse aqui; cuidar de plantas – como o pé de manjericão e o de pimenta que plantamos há meses e agora fornecem temperos para nossos pratos; definir se vai botar um vaso aqui ou ali – como a orquídea que ganhei da mamãe.

Outro prazer é inventar modas para decorar nosso endereço – como a mesa do escritório sobre a qual me apóio agora, criada com dois cavaletes e uma tábua enorme. Nela, repousa uma colagem de fotos, recortes, tíquetes de cinema, shows e partidas de futebol. Meu novo (mas nem tanto) lar-doce-lar tem também a parede da memória, onde afixamos fotos dos avós, pais e irmãos que nos fizeram ser quem somos hoje.

O caso é outra parte da alegria de estar casada. Completei bodas de papel (eu acho cômica a seqüência das tais bodas) ontem, mas conheço esse garoto há nove anos. Já sabia muito bem, portanto, em que buraco eu estava me metendo ao dizer “sim” para o moçoilo. Mas ele ainda me surpreende.

Isso porque ele é sério, mas engraçado. Esquentado às vezes, mas extremamente simpático sempre. Absolutamente sincero e comprometido com as coisas que faz. Chatíssimo, quando insiste em guardar as meias sujas dentro dos sapatos, deixar a gasolina do carro na reserva ou se negar a jogar no lixo coisas que estão na geladeira há um tempo respeitável. Objetivo, como eu preciso que alguém seja – já que sou o oposto complementar dele nessa parte. E, acima de tudo, corajoso. Muito corajoso.

Ah, sim! Ele também ri das minhas piadas e é bobo às vezes, como convém a qualquer pessoa do bem ser. Outro dia mesmo estávamos no sofá assistindo a um documentário sobre mágica, quando apareceu o famoso truque de serrar uma mulher ao meio. Perguntei: “como diabos será que eles fazem isso?”. E ele, deslavadamente: “bom, a mulher entra ali, eles serram e, depois, jogam a vítima no lixo, em dois sacos separados, um para cada parte”.

Parece que foi ontem que eu decidi levar a vida, até onde der, ao lado desse cara. E por essas e outras, não me arrependo.

Clara McFly às 07:30 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold