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Os dias de romaria Se hoje sou viciada em café, amo bolinho de chuva como à própria vida e me tornei afeita a um bom bate-papo, é tudo culpa das visitas. Visita na casa dos parentes, sabem? Pois então. Meu pai e minha mãe adoravam nos arrastar para esses eventos quando criança – principalmente eu, dona do cargo caçula-para-mostrar-aos-tios. Não que eu achasse ruim... Passar a casa dos outros em checagem era bastante divertido, eu confesso. Era batata: raiava o sábado, meu pai levantava e fazia o desjejum. Eu acordava quase junto, porque naquela época de 6 ou 7 anos nosso relógio biológico assemelha-se ao das galinhas. Roupa trocada e dente escovado, era hora de sair para passear. Em geral, só havia dois destinos: a casa da vó Emília ou o Mercado Municipal de São Bernardo, onde comprávamos itens de extrema necessidade como massa para pastel e flores. Mas o mais comum era passar rápido no mercado e seguir para a romaria familiar. Metade dos meus parentes mora na ajardinada e dormente São Caetano do Sul, o C do ABC. No mesmo bairro. Em duas ruas, mais precisamente. Visitá-los, por isso, era bem fácil. Depois de pedir a bênção na vó, começava o pinga-pinga na residência dos demais. Na paralela, ficava a casa da Tia Mariquinha. Era uma construção tão grande que moravam ali alguns núcleos familiares, como em novela a la “Terra Nostra”. Era um lugar maluco: para chegar ao terceiro quarto, das minhas primas mais velhas, precisava passar por dentro de outros dois dormitórios. Gente de antigamente não conhecia o conceito de “corredor”. Tia Mariquinha estava sempre com a televisão ligada na finada TVS e um bule de café no fogão. Ela me dava doce antes do almoço e deixava beber Tang! Era um comportamento padrão entre tias usuárias de pó-de-arroz, aventais culinários engraçados e calendários mostrando gatinhos no cesto. Típica senhora de bairro são-caetanense, a tia... Uma das irmãs dela também era visitada na “peregrinação de papai”. Tia Nica era dona de uma morada igual, daquelas antigas, com fachada modesta e milhões de metros de quintal. Nesse espaço – onde, eu juro, caberia uma praça pública –, viviam nobres moradores. Era a única casa onde a comilança não me atraía. O legal, ali, era ver o Negão. Esse era o nome do pássaro preto da Tia Nica. Era um diabo mau-humorado e ranzinza que podia mastigar pontas de dedos à menor bobeada. Mesmo assim, era divertido provocá-lo pela gaiola e ouvir aquela cantoria bonita. Quando enjoava, eu saía pra procurar as tartarugas da tia no meio das folhagens. Era umas... 190, talvez. Mas nada se comparava a visitar minha tia-madrinha. Amiga da mamãe dos tempos de faculdade, Tia Sônia foi alçada ao posto de Godmother para mim. Assim sendo, achava bom me agradar a qualquer custo. O que aprontei na casa daquela mulher não foi brincadeira. Primeiro, chegávamos para o chá da tarde. Ela fazia um balde de mate (gelado ou quente, dependendo do dia) e servia em xícaras verdes. Só porque eu gostava. Daí me entupia de bolacha com patê e manteiga e permitia que eu fosse revirar a sala. Ah, sim... A madrinha era a única pessoa do planeta a me deixar “ver com a mão”! E olha que a prateleira dela contava com frutas de madeira, bibelôs com pedras preciosas falsas e estátuas! Sendo um pequeno demônio, mas capaz de fazer cara de santinha, eu era bem-quista em todas essas casas. Em troca de deixar apertarem minhas bochechas, dar tapinhas na cabeça e abraços esmagadores, os tios me deixavam arreliar com tudo. De tanto ouvir o tal “como você cresceu!”, hoje me vejo como se tivesse 3,54 metros. Sinto falta da romaria familiar, porque hoje a maioria dessa gente maravilhosa já não vive entre nós. Devem estar servindo bolinho de chuva e Tang para uma sortuda criançada lá no céu. Um dia passarei para vê-los, quem sabe. |
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