segunda-feira, 20 de setembro de 2004

Formanda de 1990

Quando eu fiz 15 anos, não tive uma festa de debutante cheia de fricotes, babados cor-de-rosa e cadetes dançarinos. Quando juntei as escovas de dente com alguém, passei longe de vestidos de noiva, padres e assinaturas em papéis. Veja bem: não é que desgoste de cerimônias. Na verdade, acho tudo muito bonito, desde que eu não esteja incluída nelas. O único evento do tipo a contar com a participação desta que vos fala foi uma formatura.

Não me refiro, porém, à formatura do colégio – eu abri mão da colação de grau e do baile por uma viagem a Londres. Tampouco estou falando da formatura da faculdade – eu compareci fugida de um plantão de redação para pegar um canudo vazio, pois o diploma sairia só dali seis meses. Talvez tenha deixado de curtir cerimônias assim por ter vivido na pele a temida formatura do ensino fundamental.

Eu tinha 13 anos, acne na cara e cabelo ruim. Naquela época, o pensamento de ser o centro das atenções (ainda que por poucos segundos) me aterrorizava. Sob protestos, tive de vestir a horrenda beca por cima de um não menos horrendo vestido trapézio, último grito da moda dos finados anos 80. Troquei meu All Star cano longo por um incômodo sapato de bico fino e substituí minhas meias grossas por um exemplar fino e fumê.

O que eu não entendia era: qual o propósito da firula toda? Afinal, estava apenas passando de ano – coisa que eu já havia feito várias vezes antes sem maiores choques. Mas não, daquela vez era diferente. Daquela vez teve um convite com capa de veludo cor-de-vinho e meu nome escrito em dourado com letra de calígrafo.

Lembro-me de que no dia D (de “desastre”) estava um calor senegalês e eu pingava dentro daquele traje negro e comprido, mais para mulheres afegãs do que para uma menina em pleno verão brasileiro. Já na entrada do ginásio de esportes da cidade tivemos de posar para fotografia. Um horror. O único que parecia estar curtindo era o meu avô, dentro de um terno de mil novecentos e bolinha, emocionadíssimo por eu tê-lo escolhido como padrinho.

Uma vez começada a cerimônia, professores se revezaram no palco para falarem coisas profundas sobre nós sermos o futuro da nação. Após muita lenga-lenga, eles começaram a chamar os nomes dos formandos. “Ufa, finalmente”, pensei, achando que tudo estaria terminado em 40 minutos. Mas me enganei: eram 15 salas diferentes, cada uma com uns 30 alunos. O negócio demorou horas. Talvez anos. Aliás, talvez eu ainda esteja lá e não tenha me dado conta.

Pois bem. Isso foi basicamente a única formatura tradicional que tive em minha vida. Calor, nomes que eu não conhecia, discurso de prefeito... Uma maldita vela que teimava em pingar cera na minha beca, um juramento sobre alguma coisa sem importância e algumas músicas de gosto duvidoso.

No final, os alto-falantes tocaram “Somos Quem Podemos Ser” dos Engenheiros do Hawaii e desenhos em raio laser coloriram o teto do recinto. Sério, nem minha família agüentou aquilo – mamãe saiu de fininho sem falar tchau. Só então percebi que a cota de cerimônias já havia esgotado nesta vida. Outra dessa? Talvez em 2098. Isso se abolirem as becas e o Humberto Gessinger tiver virado purpurina.

Vivi Griswold às 10:12 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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