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Nem por um decreto Eu tenho ídolos. Quase todos mortos, ainda bem. Melhor assim, acho, porque não há chance de decepção. Tem coisa mais chata que adorar uma pessoa e seu trabalho e, mais tarde, descobrir que ela tem uma fazenda com trabalho escravo? Ou bate em mulher? Ou balança bebês na janela? Deus me livre. Ademais, acho meio embaraçoso correr atrás de gente famosa com lápis e papel na mão. Que me perdoem os caçadores de autógrafos, mas não acho explicação para isso. Às vezes, na televisão, vejo imagens de gente se espremendo em alambrados pra conseguir atenção de apresentadora de programa infantil, jogador de futebol, atores. Por que? Para ganhar um papel com garranchos rabiscados? Ora, daqui que eu mesma pincelo umas letras aí e digo que foi a Luana Piovani quem fez! Além do mais, já repararam como as celebridades nunca olham no rosto do fã? Nem por um segundo. Reparam nos papéis e assinam com a mesma atenção que meu pai destinava ao boletim – daí eu ter virado uma aluna relapsa. Alguns, como a Xuxa, nem se dão ao trabalho de escrever: apenas emplastram a boca de batom e tascam beijinhos na folha. Argh! Mesmo assim, sempre há gente disposta a correr atrás de famosos nos corredores de aeroporto ou shopping. Correr? Eu faço isso apenas pra salvar minha vida ou apanhar ônibus em movimento. Desabalar carreira no encalço de galã de novela, nem pensar. E isso deve assustar horrores o dito cujo... Imagina o Rodrigo Santoro, magrela daquele jeito, vendo uma horda de meninas avançar em sua direção! Não deve ficar feliz, deve se sentir no estouro da manada de búfalos, coitado! Também tapo o rosto com as mãos ao ver choro copioso na tv. O cidadão lá, cantando suas pérolas, e meninas na platéia (porque quase sempre são meninas mesmo...) desidratando no auditório. Choram feito doidas – como se isso deixasse alguém mais bonitinha e interessante aos olhos do cantor. Que vergonha... Se vir minha filha fazendo isso na tv, vai descascar cebola no porão, pra ver o que é choro. Há ainda os fãs mansos, daqueles que fazem apenas cartazes de cartolina e camisetas. Fica um pouco infantil? Fica, mas passa. As blusas costumam ter a foto do ídolo e a placa normalmente é salpicada por brocado e purpurina. Duro é ver o famoso apanhar o cartaz e dizer que vai “guardar com carinho”, que tem “um quarto só para esses presentes”, etc. Ah, tá. Eles fazem é arquivar no balde preto da lavanderia, isso sim. Desculpem a falta de romantismo, mas tenho dificuldade, hoje, de acreditar em “pessoas públicas”. Enquanto seu show está no ar, imagino que apresentadoras e afins ganham um sem-número de ursinhos, balões e presentes. E aquele rolos de carta com 200 milhões de inscrições “EU TE AMO”? Caramba: se a moça guardar mesmo todos esses como diz, logo pode montar uma usina de reciclagem. Tenho apreço por muitos artistas. Uma vez encontrei o guitarrista Edgar Scandurra num bar e, de tanta emoção, chutei a bolsa dele. E deixei cair a minha. Ele apanhou meus pertences, eu apanhei os dele. Trocamos meio sorriso, ele seguiu conversando com o amigo, eu segui andando – com as bochechas coradas como brasa. Tinha jeito de parar aquele momento e pedir “Edgar, me dá um autógrafo?” De jeito nenhum, ia quebrar a magia! O olhar foi muito melhor, e eu guardo na memória, não numa caixa de sapato. É preciso encaixar aqui, porém, uma confissão. Desde que o Garotas foi ao ar e fez amigos, muitos paparicam Clarissa, Vivi e a mim. Com doces, gracejos, CDs, cartões... É estranho pra esta que vos escreve, mas não deixo de adorar cada um e guardar bem guardado, como tesouro. Hipocrisia dizer que celebridades não fazem isso e depois dizer que eu faço? Nem tanto. Eu não sou famosa. Sou apenas uma escritora com amigos. Mas não me venham com carta de rolo!
Esse é o Cipó, e ele foi presente... Hoje, é amigão |
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