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Trocando as bolas Quem nunca soltou um push à guisa de “puxe” ao falar inglês que atire o primeiro Michaelis. Não tem jeito: a não ser que você viva num país de língua estrangeira ou não pare de praticar jamais, as escorregadelas ao versar num idioma que não é seu são fatais. Por mais que você estude, sempre escapa uma bobagem. Normal. Afinal, não fomos alfabetizados nessa língua e podemos ter lá os nossos deslizes. Ainda mais com essas ciladas de sonoridade parecida: no inglês, temos o velho push (que na verdade quer dizer “empurre”), o pretend (que na real significa “fingir”, e não “pretender”), o novel (“romance”, e não “novela”). Em espanhol, pelo pouco tempo de estudo, já vi que os vilões são o apellido (que quer dizer “sobrenome”, e não “apelido”), polvo (“pó”, e não... “polvo”) e vaso (que estranhamente significa “copo”). Isso só para citar alguns. Nós, pobres mortais, incorremos nessas às vezes. Porém, as empresas de legendagem e dublagem deviam ser melhores que isso, certo? Afinal, esse é o ganha-pão deles. Mas não são. Ou são e se fingem de mortas. Enfim. Não sei o que acontece, mas volta e meia pego traduções das mais bizarras na televisão. Talvez seja a pressa com que alguns programas são traduzidos. Aqueles telejornais estadunidenses exibidos no A&E Mundo dizem “planta” por plant o tempo todo. Aí, fica uma coisa bonita de se ver: a matéria mostra uma fábrica e, na legenda, aparece “a planta não estava em condições de funcionamento” ou algo do tipo. E nas cadeias, então? Estão cheias de gente “convicta”! Bonito, né? Isso porque convicted significa “condenado”. Mas soa tão poético ver aquele monte de gente de uniforme laranja e a legenda: “os convictos se ocupam com atividades das mais diversas”. Parece que eles são, assim, filosoficamente determinados – convictos! E não gente esperando para ser assassinada num plano minucioso patrocinado pelo governo. Esses são dois exemplos de relaxo, mesmo. Porém, há outras vezes em que os pobres tradutores devem ficar mesmo num mato sem cachorro. “Quase Famosos”, aquela fofura de filme, tem como ponto fundamental as groupies - aqueles tipos que vivem colados nos músicos. Não há uma tradução exata para o termo em português. Na versão do filme exibida pelo A&E Mundo ontem mesmo, Penny Lane e suas amigas viraram... “fanzocas”. Ficou, no mínimo, gozado. Agora, de chorar de rir foi a infame tradução do codinome da Meg Ryan em “Mensagem para Você” exibido pela TNT. Ela passa o filme trocando e-mails com seu arquirrival Tom Hanks – sem saber, é claro, que o cara do outro lado da tela é seu arquirrival. Para isso, usa o apelido “Shop Girl” – “Garota da Loja”, digamos, já que seu personagem tem uma doce loja de livros infantis. Pois não é que eles sacaram do nome “Consumidora” para traduzir o nome-de-net da Meg? Pelamordedeus, basta assistir o filme para notar que não tem nada a ver! Aposto que o tradutor tinha um senso de humor duvidoso – e fez disso uma piada sem-noção. A cena final perde todo o romantismo com o Tom Hanks dizendo “Não chore, Consumidora!”. Ah, façam-me o favor. Mas a melhor de todas as pérolas que já presenciei nessa tela-véia-sem-porteira foi em “Pulp Fiction”. A HBO é uma emissora de família, acho. Porque eles têm os maiores pudores nas legendas. No cult de Quentin Tarantino, Jules (o gângster vivido por Samuel L. Jackson) tem uma carteira onde está escrito “bad motherfucker” – que eu traduziria como “fdp sangue-ruim”, para dar um tempero nacional. Enfim, não importa o que colocariam no lugar do “bad”: o fato é que “motherfucker” é um palavrão. Para não macular a tradução, eis que a legenda exibe “miserável mau”. Ah, ah, ah! Achei a expressão sensacional. Eu gostaria de ser uma miserável má. Mas acho o cúmulo da incoerência exibir um filme em que um cara tem seus miolos estourados, outro é sodomizado e um terceiro morre sentado no vaso sanitário e, na hora de traduzir um palavrãozinho dos mais leves, ficar com frescura. Se eu sou o Jules, venho recitar Ezequiel 25:17 para esses tradutores... ![]() Segundo a HBO, ele é um “miserável mau” |
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