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Uma carta para ela Olá, querida! Preciso te dizer umas coisas. Lá no fundo, eu sempre quis muito que você chegasse logo. Dizia isso pra todo mundo, sabe? Mas no dia em que soube de fato, comprovado, que a moça estava a caminho... minha espinha gelou, a cabeça revirou feito pião, eu imaginei que tudo fosse ficar uma doideira – e não daquela boa, preciso confessar. Mas não ficou, olha que gozado! Lá para fevereiro a senhorita deve aportar aqui em casa. O quarto amarelo está à sua espera. E nós todos também, viu? Ontem mesmo sonhei contigo. Estava de cabelos clarinhos e olhos também. Eu não sei bem como pensar no seu rosto, mas vejo aqui um semblante lindo e sorridente. Ah, disso eu tenho certeza! Sabe por que? Motivos pra rir não vão te faltar depois da chegada. Numa viagem que fiz há um mês, por exemplo, te comprei um Playmobil. Explico: são homenzinhos e mulherzinhas que trocam de cabelo e acessórios, podem ir da água à terra e causam uma diversão sem fim nas pessoas com imaginação! Se você quiser mesmo brincar com eles, tomara que me convide... Dizem por aí que eu sou boa nisso, viu? Em inventar moda, quero dizer. Uma vez, decidi entrar numa competição, lá no meu antigo bairro, para ver quem dava mais pau na bicicleta. Tudo bem, acabei estendida no meio da rua, com o rosto ralado em parceria com os joelhos e cotovelos. Minha mãe, quando viu, quase desmaiou. Mas nem assim escapei da bronca. Por falar nisso, tenho que te contar sobre dois assuntos, como prevenção. Primeiro, sobre a minha mãe. Ela nem te conhece, mas já te adora, sabe? Pergunta toda vez sobre como você está passando! Meu pai também. Sabe o Marcus, aquele rapaz maravilhoso que sempre conversa contigo antes de dormir? Os pais dele também estão na maior expectativa pela sua vinda, está muito engraçado! É que eles nunca conviveram com uma mocinha assim como você, daí o nervosismo. O outro assunto é menos mimoso. Pode se preparar, menina: assim como levei muita bronca, você vai levar também! Se merecer, evidente. Acho até que não vai, porque conheço seus pais, e eles eram relativamente calminhos quando pequenos. Seu pai... putz, que peça rara! Quando pirralho, ele caçava girino em córrego, dá pra acreditar nessa nojeira? Olhando hoje para aquela carinha de santo, ninguém diria... Mas ele vai te contar isso melhor um dia, pode esperar. Aliás, é bom dar umas explicações sobre esse sujeito, o seu pai, agora – porque ele mesmo não vai fazer isso. Quando o conheci, ele parecia uma ilha de alegria, sabe? Sempre tranqüilo, amável, prudente até os ossos, mas um palhaço quando provocado. E ele é assim mesmo! Nada o abala! Só a menção do seu nome, talvez... Ah, e cookie. Ele ama cookie. Será que você já tem essas preferências também? Hum... Fico pensando: quando você chegar aqui, eu imagino que tudo vá ficar uma baderna. Porque a casa é arrumadinha agora – e multicolorida, disso eu acho que você vai gostar – mas vamos querer fazer todos os seus gostos e te deixar confortável, e aí vai virar bagunça. Posso dizer uma coisa? Eu tô achando divertidíssimo! Não vou ficar brava nem se a garotinha aí decidir desenhar nas paredes. Talvez eu precise te colocar no colo e ensinar umas coisas de vez em quando, mas no geral pretendo que você explore tudo por sua conta, quando quiser, do jeito que preferir. Umas horas vou te puxar pra dançar, cantar ou ler comigo. Não repara, eu me apego bem rápido às pessoas legais. Mesmo elas sendo pequenininhas. Bom, gente para te ensinar coisas não vai faltar... Vivi e Clarissa, eu sei, já estão maquinando um monte de artes em conjunto com você. São doidas e às vezes me dão calafrio, essas duas. Mas confio nelas como em mim mesma para te mostrar as coisas boas do mundo. Meus irmãos e os irmãos do Marcus já estão a postos também. Garantem que vão te “estragar” com doces e truques sujos. Coitados, não sabem o baile que você será capaz de dar em todos antes dos 5 anos! Há! Nossos amigos, essa leva de aloprados, já planejou de tudo também. Em te levar para aprender a tocar guitarra, passear no parque de diversão e um monte de pirações. Tô com medo que você goste mais deles do que de mim... Será? É, porque eu vou ser aquela mala responsável por te fazer comer, ter hora de dormir, não assistir tv o dia inteiro... Os outros vão parecer legais e divertidos, e eu serei a bruxa? Ah, não quero! Prefiro que você olhe pra mim e veja o quanto te amo. Porque eu amo muito, viu? Esquece aquela besteira que disse no começo da cartinha, sobre ter tido um espasmo quando soube da sua vinda... Levou míseros dias pra eu perceber como a sua presença vai ser deliciosa, como a gente vai se divertir junto. Não vai ser fácil sempre, um mar de rosas eterno, eu sei. Quando você completar 15 anos e entrar naquela idade pentelha, por exemplo, talvez me odeie. Mas vai passar, não vai? Vai sim, porque você já deve saber desde agora que eu só quero o seu bem. Até te nomeei pra tomar o meu lugar no Garotas que Dizem Ni quando ficar mais velha! E parei de tomar café, porque explicaram que isso te faria mal! Pior que eu adoro café... Só que adoro muito mais você, viu, Sabrina? Ah, não te contei?? Esse vai ser o seu nome. Cada vez que digo em voz alta, dá vontade de chorar. É a ansiedade pra te ver logo. Mas fevereiro está aí, e a mamãe mal pode esperar pra te ver chegar, filha... Um beijo! |
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