quinta-feira, 16 de setembro de 2004

Quem poderá nos defender?

A resposta a essa pergunta está nas mãos de um super-herói – que de “super” e “herói” não tem nada. Ele é baixinho, mirrado e possui parcos poderes. Ele é confuso, medroso e mais atrapalha do que ajuda. Ele não usa imponentes uniformes ou capas voadoras, e sim um par de ridículas antenas. Ele não nasceu na terra do tio Sam, como 99,99% dos salvadores da humanidade, mas no México. Ele é nosso querido e único... Chapolim Colorado!

Vou confessar uma coisa: por mais que eu goste do Chaves, era nos episódios do Chapolim que eu caía do sofá de tanto da risada. Cada programa conseguiu ser melhor que o outro, além de ultrapassar a barreira do nonsense – o vermelhinho já se materializou tanto na época do Renascimento quando no espaço. Sem mencionar, claro, os indescritíveis efeitos especiais que parecem ter sido feitos no fundo do quintal da Televisa. Mambembe em sua mais perfeita tradução.

Chapolim chega quando alguma alma aflita profere a frase do título. É a senha para o herói aparecer do nada e começar a sua missão – que está mais para fazer os inimigos rirem do que salvar os necessitados. Mas o personagem não é tão desprevenido assim: suas antenas de vinil captam o menor dos movimentos; sua marreta biônica acaba com qualquer oponente; suas pílulas de nanicolina possibilitam que ele passe por buracos de fechadura e frestas de janela; sua corneta paralisa todos que a escutam; seu conhecimento o faz conversar em vários idiomas.

Mesmo com todo esse arsenal (ou, talvez, por causa dele), o desempenho do vermelhinho sempre deixa a desejar – mas nunca no quesito de comédia. Enquanto o herói tenta resolver o dilema da vez, o cenário ajuda a situar o telespectador: florestas de plástico, cadeiras de isopor, cavernas de papel, bichos empalhados e armas de brinquedo. Um teatrinho de escola em rede nacional! Tem como ficar melhor? Tem.

Além de ser uma negação para salvador, Chapolim ainda não demonstra muita criatividade na hora de abrir a boca. Para o nosso deleite, o personagem tem frases carimbadas que ficaram célebres: “Não contavam com a minha astúcia” é a mais famosa. Na mesma leva, as inesquecíveis “Não priemos cânico”, “Se aproveitam da minha nobreza”, “Sigam-me os bons” e, lógico, “Suspeitei desde o princípio”. Ficou com saudade, né?

Então vou lembrar de cinco episódios clássicos do Chapolim Colorado que são meus favoritos. Se um dia lançarem DVDs contendo qualquer uma dessas pérolas, compro dois de cada – um para guardar, outro para assistir até ficar com câimbra no maxilar de tanto dar risada.

1) O Alma Negra
Uma mulher interpretada pela Dona Florinda (repare que nunca sabemos o nome dos atores) tem o carro quebrado e entra em uma casa para passar a noite. Lá está um mané, interpretado pelo Quico, que procura um tesouro do seu tatatatatatatataravô. O que eles não sabem é que o tesouro está sendo guardado pelo pirata Alma Negra, uma das melhores interpretações do saudoso Seu Madruga.

2) O bebê Jupiteriano
Em matéria de “defeitos” especiais, esse episódio é campeão. O bebê de Júpiter chega à Terra a bordo de um disco-voador de isopor pintado com guache. Dá até para ver a textura do material! Mas a tosqueira não termina aí: o bebê, um adulto de fralda, tem o tamanho de uma minhoca. Porém, começa a crescer de maneira desordenada até virar um gigante. O cromaqui é deliciosamente ruim.

3) A picada de cobra
Um dos roteiros mais geniais que Chapolim já vivenciou. Uma equipe de pesquisadores estão em plena selva. Dona Florinda é integrante do grupo que, ao sentar, sente uma picada na bunda. Achando que é uma cobra, pede por socorro. O vermelhinho chega e eles juntos tentam arrumar um antídoto depressa, mesmo que isolados pela mata. No final... Bem, na verdade a picada foi ocasionada por um alfinete.

4) A história de Cleópatra
Dona Florinda (sempre ela) é uma mulher que coleciona amantes e acha que o amor se compra. Chapolim chega para ensinar à madame que não é esse o caminho da felicidade: ele conta para ela a triste história da rainha do Egito, que teve vários homens e acabou sozinha. A encenação de Cleópatra é, logicamente, hilária – Florinda anda com as mãozinhas para cima, como aparecem nos hieróglifos. Uma jóia.

5) As venusianas
Dois astronautas estão presos em Vênus (!) e Chapolim chega para ajudá-los (!!). Juntos, eles encontram uma pedra que voa (!!!) e outra que fala (!!!!), ambas feitas de isopor. A dupla, no entanto, decide ficar e se casar com duas venusianas (!!!!!) que usam roupas de Pedrita e falam um idioma peculiar: substituindo as vogais das palavras pela letra “u”. Faltaram-me pontos de exclamação para qualificá-lo.

chapolim.jpg
Vivi Griswold às 10:46 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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