quarta-feira, 15 de setembro de 2004

As tramas musicais continuam

Antes de tudo, gostaria de começar o texto de hoje fazendo uma menção honrosa a essa figura ímpar da música internacional – e rei das arapucas, pegadinhas e ciladas videomusicais. Falo do grande Jon Bon Jovi, excelente intérprete de pérolas perfeitas para se dublar no carro ou em casa.

Jon é o rei dos clipes com historinha, desde “Miracle”, onde aparecia de moto numa cidadela perdida no meio do nada, passando por “Blaze of Glory”, que inclui cenas de outra historinha, desta vez cinematográfica (“Jovens Demais para Morrer”), até chegar no inesquecível “Always” – um melodrama com direito a separação do casal e incêndio final.

Mas a superação veio com um vídeo mais recente, cujo nome desconheço. Para variar, tudo começa com um casal brigando. Como a mocinha não quer mais saber do mané, ele decide subir num prédio e ameaça se jogar. Quando já formou-se uma muvuca debaixo do edifício e a menina, inclusive, se encontra por lá, o infiel pula.

No meio da queda, abre um pára-quedas. E no pára-quedas tem uma inscrição do tipo “te amo, volta para mim”. Pelamordedeus! Não era mais fácil ligar no Love Songs e pedir para participar do Recado do Coração, coroado com uma balada do Roupa Nova, do Placa Luminosa ou mesmo do próprio Bon Jovi? Não, é claro que não: ele tinha que importunar o mundo todo com esse videoclipe bizarro.

Pronto. Depois da menção honrosa (e de um copo de água com açúcar para passar o nervoso de lembrar desse vídeo infernal), vamos ao que interessa: a conclusão da lista dos clipes de historinha inesquecíveis!

5. Hoje eu Acordei Feliz, do Charlie Brown Junior
Classificação: policial
Não nutro muita simpatia pela banda que diz querer que o “sistema” se ph*da e faz propaganda da coca-cola. Mas dou o braço a torcer para o vídeo, comandado pelo impagável André Abujamra (que além de ser um cara legal ainda é filho do Ravengar), com uma trama rocambolesca e divertidíssima.
Imagem inesquecível: As garotas gostosas dão um chega-prá-lá nos rapazes, porque preferem, digamos, brincar entre si.

4. Jeremy, do Pearl Jam
Classificação: tragédia escolar
Tenho sérias desconfianças de que o Pearl Jam foi uma banda meio montada para pegar a onda Seattle. No entanto, uma vez firmados, provaram seu valor musical e disseram “não” para a exploração da imagem. Um dos raros clipes em que aparecem é este – e ainda dividem o tempo com a história do menino que pirou, matou uns coleguinhas de escola e se matou depois.
Imagem inesquecível: As crianças paralisadas, manchadas de sangue, no final do vídeo.

3. November Rain e Don’t Cry, do Guns’n’Roses
Classificação: drama pé-no-saco
A trajetória do Guns podia se chamar “Como a Megalomania Acabou com uma Banda Bacana”. A época dos clipes acima citados foi o ápice do “ó, como eu sofro, olhem todos!”. O resultado foram duas peças bem produzidas mas intermináveis, sem pé nem cabeça e sem juntar trá com lá. Me dá arrepios!
Imagem inesquecível: De “November Rain”, o Slash saindo de uma igrejinha no meio do nada e tocando um solo de guitarra (?!). De “Don’t Cry”, Axl saindo da água como um bebê, e encompridando infinitamente aquele grunhido final.

2. Crying, do Aerosmith
Classificação: teen drama
A fita lançou dona Alicia Silverstone aos holofotes e deve ter se esfacelado, de tanta reprise. Claro que eu adorava, do alto dos meus 15 ou 16 anos, a idéia de viver aquele tumultuado namoro com direito a tatuagem e ameaça de suicídio com um gesto obsceno no fim. Depois, cresci e vi que a vida não é um videoclipe do Aerosmith. Eles, não: ainda fizeram “Crazy” e “Amazing”, também com historinha.
Imagem inesquecível: Alicia pula duma ponte na cara do namorado traidor. Depois do susto, ele vê que ela estava presa a uma corda. E ela mostra outra coisa para o moço.

1. Thriller, do Michael Jackson
Classificação: horror coreografado
Bon Jovi usou e abusou do recurso, Aerosmith pôs de volta na moda nos 90. Mas Michael e John Landis sacaram dessa em 1983: “Thriller” é um micromusical e o melhor clipe de historinha que já vi! Wacko Jacko (que ainda não era wacko – nem branco) e sua namoradinha saem de uma sessão de filme de terror e, no caminho para casa, são cercados por mortos-vivos. No fim, o clichê-mor do “era tudo um sonho (ou não)” resolve a parada. Como em todo musical que se preze, as pessoas (ou zumbis, nesse caso) saem cantando e dançando assim, do nada. Demais.
Imagem inesquecível: Michael vira para a câmera e seus olhos estão demoníacos. Só Deus sabe quantas noites passei em claro depois de ver aquilo no “Fantástico”...

thriller.jpg
Mal sabia eu que Michael viria a ter
uma cara (verdadeira) ainda pior que essa
Clara McFly às 08:06 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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