segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Rá rá rá

Afinal, o que é ser engraçado? E por que achamos de relaxar certos músculos da cara, contrair outros, mostrar os dentes e fazer um estranho som ao toparmos com certas coisas? Mistério. Diz que senso de humor é uma das coisas que nos diferencia dos chamados animais irracionais... talvez seja a única, pensando melhor.

Longe de mim querer explicar o que nos faz rir. No entanto, uma coisa é certa: como dizia Jesus Cristo, é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que todo mundo achar graça da mesma piada. Peraí. Não era bem isso. Mas serve. Não existe piada absolutamente universal. O que é bom – afinal, se todo mundo gargalhasse diante das mesmas coisas, a quem iríamos irritar rindo em altos brados quando achássemos graça numa piada infame?

Tombos em escadas. Tortas na cara. Mal-entendidos homéricos. Trocadalhos do carilho. Porretes de isopor. Ditames baratos. Homens vestidos de mulher. Diálogos afiados. Expressões levadas ao pé-da-letra. Ritmo. Esses são alguns dos ingredientes da comédia – e confesso que sou capaz de me divertir com todos eles. Confesso mais, até: juro que me esforço, mas ainda me pego rindo de algumas videocassetadas. Pronto, falei.

Porém, a confissão final ainda está por vir: embora me ache uma pessoa engraçada, não sei contar piadas. Ok, muita gente não sabe. Mas o pior de tudo é que não sei ouvir piadas. É isso mesmo: sou péssima ouvinte de piadas. Já começo a maquinar o final da história logo no início da narrativa. Fico com medo de não achar engraçada e, assim, deixar meu interlocutor sem graça. Então, passo a ensaiar mentalmente uma risada convincente e acabo perdendo a piada em si.

Estrago tudo, enfim. Mas também, piadas são quase sempre iguais! Se fôssemos guardá-las naqueles armários de botica, cheios de gavetinhas, bastava escrever uma meia dúzia de etiquetas e pronto: estariam todas categorizadas. Vejamos: temos piadas de loira, de papagaio, de português, de baixo calão e de bêbado. Até agora, as categorias são auto-explicativas.

Tais anedotas têm como tema central, respectivamente, as mocinhas cujas madeixas são colegas de cor das minhas; a ave capaz de repetir os fonemas da língua humana; os nossos colonizadores com fama de tapados (assim como as loiras); preconceitos idiotas contra negros e nordestinos (pensou que eu achava sexo coisa de baixo calão? Perto do que se fala nas piadas desse grupo, qualquer perversão é reza) e, finalmente, aquele pessoal chegado num subproduto da cana que não é açúcar.

Entendido o tema das piadas, restam as perguntas: por que os papagaios de piada são sempre tão espertos e as loiras, coitadas, umas antas? Papagaios apenas repetem o que a gente fala, por Deus! Isso não quer dizer que eles adquiram estruturas lingüísticas! Outra: que mania é essa de achar que português é burro? Aposto que eles contam piadas de brasileiro por lá. E não é meio cruel mangar de gente com um problema grave de saúde, como o alcoolismo?

Bom, se nos guiássemos estritamente pela solidariedade politicamente correta, seríamos o povo mais chato do mundo. Há que se abrir umas exceções. Só que piadas que diminuem o povo preto e o pessoal da porção mais ensolarada do Brasil realmente não me despertam o riso.

Mas minha dúvida maior paira mesmo na categoria de piadas, digamos, de meios de transporte – aquelas famigeradas historietas que juntam meia dúzia de manés de nacionalidades ou naturalidades distintas num avião, ônibus ou trem. Elas começam mais ou menos assim:

“Tinha um americano, um japonês, um brasileiro, um indiano e um argentino num trem”

ou, ainda, assim:

“Tinha um mineiro, um paulista, um carioca e um baiano viajando de ônibus”.

Algumas tem o upgrade de celebridade, e contam também com uma personalidade famosa entre os gentilícios, do tipo “Estavam um americano, um italiano, um brasileiro e o Ronaldinho num avião”.

O problema com essas piadas (sem entrar no mérito da possibilidade de um americano, um italiano, um brazuca e o Ronaldinho dividirem um avião) é que elas sempre juntam nacionalidades carimbadas. Pode ver: é um americano, um argentino, um europeu a escolher, um japonês, um indiano, um argentino e, é claro, um brasileiro. Fica manjado!

Queria ouvir uma piada que começasse com “Tinha um somali, um guatemalteco e um javanês num monomotor”, ou algo do tipo. Aí, eu juro que prestaria atenção na anedota.

Se alguém souber de uma piada assim, é favor me enviar.

piadas final.JPG
Por que eles não podem participar da literatura humorística mundial também?


Clara McFly às 08:05 PM

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Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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