segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Amigos, amigos...

... amores à parte?

Há quem diga que homens e mulheres não podem ser amigos. Quer dizer, não que a amizade seja impossível – o difícil, no caso, seria não rolar algum tipo de segundas, terceiras e inclusive quartas intenções de vez em quando, o que descaracterizaria o status de "amigo" e elevaria os dois ao status de "amigos coloridos". Normalmente, quem tem esse pensamento é criticado ferozmente. Imagine, que absurdo! Meninos e meninas podem ser só amigos sim. Ou será que não?

Para ser sincera, ainda não fiz a minha cabeça no assunto. Sabe por quê? Porque eu sempre tive ótimos amigos homens e tais amizades nunca passaram da linha, mesmo com insinuações de gente de fora. Cansei de ouvir "ah, e o fulano, hein? Vocês se dão tão bem... Tem certeza que é só isso?". Por outro lado, já passei sim pela perturbadora situação de me apaixonar completamente pelo meu melhor amigo e ficar entre a cruz e a caldeirinha, como se diz.

Estava eu sentada na cadeira da classe no primeiro dia de aula da faculdade de jornalismo. CDF até dizer chega, havia preparado antecipadamente um grande fichário – achando que iria escrever de montão, copiar da lousa, fazer lição e essas coisas. Recortei uma matéria de uma revista que publicara todas as capas de todos os LPs lançados pelos Smiths, minha banda favorita, incluindo álbuns e singles.

Do meu lado, um rapaz virou-se, apontou uma das capas e disse "esse é meu favorito". Virei-me e começamos a conversar sobre música. Depois, sobre cinema, TV, fast-food, clima, viagens, cultura trash, seriados japoneses, infância e qualquer outro tópico que surgisse. Ele ligava em casa para perguntar sobre um trabalho e ficávamos duas horas conversando sobre amenidades, sem momento algum de silêncio constrangedor.

Após alguns papos, ele já foi elevado ao patamar de melhor amigo e de uma das pessoas mais incríveis que tinham passado pela minha vida. Andávamos juntos o tempo inteiro, fazíamos dupla nos trabalhos, listávamos as piores músicas de todos os tempos nos intervalos, adivinhávamos o pensamento do outro sem abrir a boca. Foi uma questão de tempo para que os colegas em volta trocassem aqueles olhares de "esses dois... sei". E eu, indignada, batia na tecla de apenas bons amigos.

Até que eu fiz aniversário. Ele passou em casa e fomos ao cinema. Em seguida, me deu um CD dos Smiths (claro), cheio de versões alternativas para as músicas que tanto gostávamos. Dentro, um bilhete escrito à mão em folha de caderno com um poeminha do João Cabral de Melo Neto, o texto de abertura do programa "Além da Imaginação" e um monte de palavras carinhosas sobre mim. No final, assinava "do seu amigo...". Daí a ficha caiu – pô, amigo? Não, eu queria mais!

Eis que comecei a perder o sono. E agora, o que fazer? Confessar a paixão e perder a amizade ou deixar tudo como está? Bem, depois de muita enrolação, descobri que ele também sofria da mesma forma. Deixamos os grilos de lado e resolvemos apostar. Se deu certo? Entre altos e baixos, sim, deu. E hoje faz exatos oito anos que o meu melhor amigo virou meu parceiro de risadas, lágrimas, beijos e muito carinho.

Vivi Griswold às 10:05 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold