sexta-feira, 10 de setembro de 2004

Eu encontrei a Mirtes, o Válti...

... e a trupe toda em Tiradentes

Na nossa frente, estava um chafariz datado de 1749. Desde tal tempo longínquo, o local é abastecido por um aqueduto de pedra que traz o líquido do Bosque de Mãe D’Água até ali. A peça foi construída pela Câmara Municipal de São José Del Rei – mais tarde rebatizada como Tiradentes – e conta com três bicas, cada qual idealizada, à época, com uma finalidade específica: de-beber para a população, de-lavar para as lavadeiras e de-beber para os cavalos.

Diz a lenda que quem toma dessa fonte tem volta garantida à adorável cidadela. Assim sendo, me empenhei em encher o squeeze, companheiro inseparável das caminhadas, com a água do Chafariz de Tiradentes. Depois disso, me aboletei nas pedras para passar os tradicionais cinco ou dez minutos de contemplação e tentativa de compreensão de uma coisa tão grande.

Tudo parecia calmo – e estava, de fato. Até que uma picape meio velhusca estacionou defronte ao lugar. De dentro, salta uma criatura sem camisa, trajando apenas calça jeans com cinto e chinelão. Faço questão de ressaltar o detalhe do cinto e já explico o porquê: apesar do acessório, as calças do infiel deixavam em exibição um terço do seu derrière! Aquilo não era um cofrinho. Era uma caixa-forte.

Depois de abrir as portas e a caçamba da picapona (deixando aparecer um colchonete disposto ali) e ligar o som no último volume, Válti – não restavam dúvidas de que só podia ser ele – caminhou em direção a um animado grupo de mulheres e crianças ao lado do chafariz. E põe animado nisso.

Dentre as mulheres, a mais simpática trajava uma roupa de algum tecido sintético - deveras inadequado para um calor de, digamos, 30 graus. Nos pés, sandálias de salto médio – completamente inadequadas para uma cidade cheia de ladeiras. Parecia aquelas tias que vão jantar fora uma vez a cada seis meses, manja?, e capricham na produção de ocasião. Tinha de ser a Mirtes.

Provei a tese quando o comprovado Válti se aproximou da suposta Mirtes, disse alguma coisa e, na seqüência, virou-se de costas para a mulher. E então, o horror: ela começou a cutucar e espremer uma espinha nas costas do cidadão! Juro pelas ladeiras de Ouro Preto.

A cena me causou repulsa. Isso é coisa que se faça em público? Pior ainda, em público e diante de um chafariz de 1749? Acho que não! Quis desviar o olhar para o outro lado da fonte, mas ali a irmã mais nova da Mirtes (provavelmente a Dirce ou a Dinorá) pegava uma das crianças, já de cuecas, e a mergulhava dentro do chafariz. Acode, São José de Botas!

Tudo fazia sentido agora. Era mesmo a família inteira da Mirtes, com toda a cunhadagem, sobrinhagem e agregados – provavelmente, acomodados em viagem no colchonete da caçamba da picape, com o som no último. O pior? É tudo verdade. O melhor? Ainda bem que encontrei com eles, gente autêntica e divertida, por ali. Só podia ter passado sem a história da espinha...

Clara McFly às 07:35 PM

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Pipoca, telona, escurinho e
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Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
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No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
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