quinta-feira, 9 de setembro de 2004

Eu ri (à beça) em Ouro Preto...

... e adjacências

Nem só de passar medo vive uma escriba magrela como eu, ao visitar cidades históricas brasileiras. Como não poderia deixar de ser, o feriado prolongado rendeu também gargalhadas à vera – como diria a Mãe Loura do Funk.

Primeiramente, como todo bom viajante inexperiente, pedimos um bocado de informações para os transeuntes. E demos azar: acho que todos tinham a mesma noção de direção que eu tenho, facilmente classificável como... xexelenta. Não teve um – repito: um sequer! – que acertou os conceitos de direita e esquerda. Assim, aprendemos a nos guiar pelo apontamento gestual do informante, e não pelas palavras. Porque todos apontavam para a direita e diziam “pega ali, à esquerda”, ou vice-versa.

Também descobrimos que os mineiros dessas cidades têm um ritmo de vida assim, digamos, diametralmente oposto ao de São Paulo. É normal esperar bastante pela comida, fato agravado pela lotação da cidade no feriado. Isso porque as refeições são literalmente fresquinhas – ao ponto de, em Mariana, termos pedido couve e a dona do restaurante dizer: “peraí que eu vou ali na horta pegar”, passando por nós toda serelepe, com um punhado de folhas recém-colhidas na mão, minutos depois.

No circuito histórico, sinalização de lombadas é uma coisa que, como diria nosso caro Quevedo, no equi-siste. Pobre da moringa comprada em Tiradentes, que agüentou firme e forte todos os trancos levados no porta-mala por conta disso. Em compensação, coisas estranhíssimas tomam lugar nessas cidades, como um motel chamado “Ô CQSAB” (levei alguns minutos para entender que não era uma sigla) e um candidato a vereador conhecido por “Zé Ruela” (será que lá a expressão tem o mesmo sentido que aqui?).

Mas no quesito “acontecimentos bizarros”, fora o encontro com a família completa da Mirtes (ocasião com tanto assunto que fica para outro dia, se assim vocês quiserem), o campeão foi o relacionado a um padre de nome estranhíssimo. Na maratona de visitas às igrejas, topamos com uma onde se realizava um casamento. A noiva estava bem à porta, esperando para fazer sua entrada triunfal. Namorido e eu ficamos, portanto, esperando ali fora.

Depois que a moçoila adentrou, corri para dar uma espiadela no templo. Eis que, então, um senhor se aproxima do meu digníssimo (que estava trajado como um típico turista, com câmera na mão e tudo), olha para o padre (visível lá longe, no altar, pela porta ainda aberta), e saca da pergunta:

“Viu... esse aí é o padre Marreco?”
“Como, senhor?”, pergunta o pobre, intrigado com o nome do sacerdote e mais intrigado ainda com que razões levariam um velhinho a perguntar isso assim, de sopetão, para um turista.
“Esse aí... não é o padre Marreco?”, insiste o cidadão.

Num átimo, o rapaz para quem eu disse sim calculou os riscos, não quis desapontar o velhinho e decidiu-se pela resposta:
“Er... não, não é ele não”
“Ah. Achei que fosse. Assim, de longe, não parece o padre Marreco?”
Incapaz de prosseguir com aquilo, Douglas acenou-e-sorriu e saiu andando pela noite de São João Del Rei. Ainda estamos tentando descobrir o paradeiro do padre Marreco.

Clara McFly às 08:24 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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