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Limpeza em campanha Está se tornando difícil fazer uma das coisas que mais gosto na vida: olhar o céu. A poluição atrapalha, deixando o firmamento mais cinza, sem-graça e fora de moda. Os fios elétricos viraram praga – e hoje meu bairro parece uma região dada a ligações clandestinas. Nesta época do ano, em especial, outro problema vem incomodar a romântica atividade de fitar as nuvens e aquele mundão azul: campanha eleitoral. Os políticos já empesteiam a cidade mais que os gases tóxicos. Os outdoors são feiosos, mas têm sem lugar demarcado, então passa. Na tv, as propagandas são chatas e repetitivas, mas assiste quem quer. Duro de aturar são os outros meios de incutir no povo o número de votação. Faixas. Cartazes colantes. Muros pintados. Santinhos de papel. Eu poderia fazer, com toda essa tralha, uma grande fogueira capaz de assar dois bilhões de salsichas. As malditas faixas são a praga pior e mais difundida hoje em dia. Trata-se de um teco de plástico de 50 cm por 50 cm fixado com grampos em duas ripas. No alto, fios prendem a bizarrice nos postes do município todo. Quem foi o brilhante designer do aparato, desconheço – mas é um sujeito burro pacas. Com três dias de vento, o plástico solta das madeirinhas e cai no chão, impedindo o curso d’água na sarjeta ou atolando bueiros. No poste, sobram as ripas, aquela coisa porca de se ver. Tem propaganda mais imbecil? Não devíamos votar em quem usa uma lógica tão tapada. Gente assim certamente fará pontes com palitos de sorvete. Nos muros, vê-se quase a mesma tática ruim. O candidato compra o espaço, pinta 50 metros de parede de branco e lá escreve seu nome e número eleitoral. Puxa, quanta imaginação! Todos nós somos tontos o bastante para pensar mesmo “uau, ele pode pagar por esse tantão de muro e ainda rabiscar seu próprio nome em letra tamanho gigante! Será um baita vereador!”. Sério: não seria melhor idéia gastar mais algum dinheiro e contratar um bom grafiteiro? Esses artistas podem fazer desenhos lindos e divertidos sobre, por exemplo, a plataforma eleitoral do aspirante ao cargo. E depois que o pleito passar, não sobrará na cidade um muro besta dizendo “Helinho do Lava-Rápido – 14.600”, mas uma imagem interessante. Levei quase 30 segundos para pensar na alternativa, não é possível que seja algo tão difícil imaginar. O caso, porém, é que criatividade não faz parte do currículo dos candidatos. Fico pensando: em vez de produzir aquele sem-número de cartazes e colá-los porcamente em cada centímetro quadrado do país, não seria mais negócio patrocinar uma boa causa? Raciocinemos: mendigos são andarilhos bacanas que não incomodam ninguém e precisam de muita ajuda. Por que os candidatos não mandam fazer cobertores com suas caretas, nome e número e dão aos caras? Eles andam pela cidade toda, podem ser verdadeiros cabos eleitorais! Além disso, quem se dispõe a aquecer outro ser humano ganha a simpatia os eleitores – a minha, ganha. Outra, outra: catadores de papéis são homens hilários que cantam enquanto trabalham e decoram suas carrocinhas com a maior animação (outro dia vi um com uma Daniele Winits de papelão encaixada no carrinho... Jurei que ele estava carregando a própria...). Os candidatos poderiam contratá-los para cantar seus jingles e decorar os carrinhos com material de campanha. Taí uma verba bem gasta! Sei que é impossível isso tudo acontecer pra já. Gente que concorre a cargo público não gosta de arriscar, não quer mostrar que pode fazer diferente. Acham que, assim, terão pedras jogadas em seus frágeis telhados de vidro, e então podem perder a fatídica eleição e ficar sem emprego por quatro longos anos. É mais provável que continuemos vendo, por anos a fio, mais e mais faixinhas plásticas enfearem e emporcalharem nossas cidades, agregando valor nenhum. Bom é que podemos pensar nisso e evitar votar nos bocós usuários desse esquema de campanha falido e retrógrado. Se algum candidato vai surpreender e botar a cachola para funcionar, criando formas de não detonar nosso ambiente, é esperar para ver – e aplaudir. Eu vou pedir isso aos céus! Assim que conseguir vê-lo de novo... |
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